EDUCAÇÃO
E PODER NA RACIONALIDADE DA COOPERAÇÃO
Walter Frantz
2003
Resumo
A cooperação é uma ação que decorre de um ato de
vontade política de indivíduos que passam a se identificar, a
partir de necessidades ou interesses comuns. Desenvolvem uma conduta
racional de associação em suas relações de identificação, de
cujo processo nascem formas de organização e instrumentalização
de seus interesses e objetivos. O comportamento co-operativo
dos associados na empresa-cooperativa
deve ser racionalmente organizado, através de normas, regras,
contratos. A associação
é o lugar dos acordos, dos debates; a organização
é o lugar das regras, do contrato, da co-operação. Pela
comunicação, no espaço da associação, organizam-se e estruturam
seus instrumentos de ação co-operativa, desencadeando processos
educativos e construindo relações de poder. Organizar uma
cooperativa é buscar construir poder, especialmente, nas relações
econômicas com o mercado. Os associados, construindo poder para a
busca de soluções práticas, relativos aos seus problemas, induzem
a um processo de aprendizagem: manipulam informações, aprendem e
constroem conhecimentos. Educam-se, assim, nas relações sociais e
econômicas de cooperação e de competição. Educar-se para o poder
político com a finalidade de construir uma nova “ordem social” é
uma etapa fundamental do processo de organização cooperativa.
Palavras-chave:
cooperativismo, cooperação, educação, poder.
Cooperation
is an action that derives from an act of political will of
individuals that begin to identify by common necessities or
interests. They develop a rational behavior of association in their
relations of identification, performing a process that bears forms of
organization and instrumentalization of their interests and
objectives. The cooperative behavior of the associates in the
cooperative company must be organized rationally, by norms, rules and
contracts. The association
is the place of the
agreements, the debates; the organization
is the place of the
rules, the contract and the cooperation. Through the communication in
the association’s space they organize themselves and structure
their instruments of cooperative action, unchaining educative
processes and constructing power relations. To organize a cooperative
means to build up power, especially in the economic relations with
the market. While building power to find practical solutions for
their problems, the associates induce to a learning process: they
manipulate information, they learn and build knowledge. Thus they
educate themselves in the social and economic relations of
cooperation and competition. To educate oneself to political power
with the purpose to put up a new “social order“ is a basic stage
of the cooperative organization process.
Keywords:
A compreensão da ação e da estrutura
cooperativa
O cooperativismo não é uma ciência; é uma prática social. Por
isso, recorre-se às diversas ciências para melhor entendê-la. As
pessoas que se ocupam dessa prática social podem se servir de
teorias do campo científico para compreender melhor aquilo que fazem
ou o que ocorre nas organizações cooperativas. No entanto, é
importante ter o cuidado de não “recortar” a realidade da
prática social de modo a “adaptar-se” ao quadro referencial
teórico. A teoria deve servir ao entendimento da prática, porém
ela não consegue explicar toda a prática. Sempre restam dúvidas ou
surgem novas perguntas que levam a novos conhecimentos, ao final, a
novas teorizações.
Para a reflexão sobre o funcionamento de organizações
cooperativas, deve-se buscar interlocução, diálogo, em diferentes
campos de conhecimento, junto aos seus diversos teóricos.
Normalmente, para isso, vai-se ao campo das ciências sociais. Os
seus conceitos teóricos podem servir de orientação às reflexões
sobre a organização e o funcionamento de cooperativas que se quer
desenvolver. O recurso a esses conceitos explicativos teóricos
permite expandir o pensamento e a noção compreensiva das atividades
de cooperação, das práticas do cooperativismo. O confronto entre a
teoria e a prática pode produzir maior clareza, maior compreensão
daquilo que acontece, no dia-a-dia, dentro de uma organização
cooperativa.
Na verdade, de certo modo, também todos os associados e
funcionários, além de práticos, são também teóricos do
cooperativismo, pois, ao discutirem sobre as suas experiências,
produzem novos conhecimentos, elaboram conceitos que os ajudam a
compreender melhor aquilo que acontece e que se faz nas cooperativas.
Assim, pelo caminho da prática-reflexão-prática, os associados e
os funcionários desenvolvem conhecimento, base para novas
teorizações. A percepção e a sistematização desses
conhecimentos, elaboradas nas práticas, podem se constituir em uma
das melhores orientações à gestão das cooperativas.
Quanto mais se compreende os fenômenos
e os acontecimentos em todos os espaços da vida, mais possibilidades
de organização e ação se apresentam, diante de suas dificuldades
ou interesses. Entre o conhecimento e a ação dos homens existe uma
estreita relação. Dessa relação nasce o poder de ação. Pela
organização cooperativa busca-se poder de ação. Portanto, faz
sentido aprofundar o conhecimento teórico sobre o que é e como
funciona uma cooperativa. O exercício do poder cooperativo depende
dessa compreensão, depende de conhecimento.
O cooperativismo é um fenômeno
social complexo e, de certo modo, polêmico. Diante da complexidade e
da polêmica, é compreensível que surjam incertezas, muitas dúvidas
e perguntas a respeito das práticas cooperativas, tais como: Qual a
racionalidade da cooperação? Qual o uso social dos ideais e
princípios do cooperativismo? Quais os mecanismos que regulam a
organização cooperativa? Qual a relação entre a ação de
cooperação dos indivíduos associados e a estrutura de organização
cooperativa? Quais os efeitos dessa relação? Qual a solidariedade
necessária à cooperação? Deve a organização cooperativa, como
reação a uma situação de problemas ou dificuldades, também
cultivar as dimensões não econômicas do fenômeno cooperativo?
Teria a cooperação, predominantemente, suas raízes no egoísmo do
ser humano, na busca por maximizar, individualmente, as vantagens
entre diferentes escolhas, ou seria a cooperação também expressão
de uma dimensão ou natureza solidária da sociabilidade do ser
humano? Como deve ser a gestão de uma cooperativa, diante disso
tudo? Diante das incertezas e das perguntas, abre-se o campo da
pesquisa para as diversas ciências, para a teorização.
Afirma Morin (2000, p. 59) que a
condição humana está marcada pelas incertezas. Portanto, mais que
lacunas, as incertezas e questionamentos a respeito da natureza do
cooperativismo, são elementos componentes da prática da cooperação.
Não é na certeza, mas no diálogo entre os diferentes saberes que
está o valor da pesquisa e o caminho de novas respostas. Constituir
as condições do diálogo científico entre os diversos saberes e
teorias é tarefa central à produção de conhecimento sobre as
práticas cooperativas. A prática da pesquisa constitui o espaço de
articulação e entrelaçamento das ciências, no caminho das teorias
de explicação da ação e da estrutura de organização
cooperativa.
Ensina Mario Osorio Marques (1998, p.
98) que
cumprida
primeira tarefa de desenhar o seu tema, ou o eixo central, a espinha
dorsal, de sua pesquisa, cabe agora ao pesquisador convocar uma
específica comunidade de argumentação em que se efetive o unitário
processo de interlocução e certificação social de saberes postos
à discussão em cada tópico a ser desenvolvido.
O estudo e a pesquisa dessas dúvidas e perguntas constituem, hoje,
após as diferentes experiências, a base de nossa nova relação com
o cooperativismo, de modo especial, com as organizações
cooperativas do meio rural. Os laços com o tema e a inquietação
por sua melhor compreensão e a necessidade de encontrar respostas às
perguntas acumuladas, ao longo dos anos de vivências e práticas,
nos reconduzem, agora, pelos caminhos do estudo e da pesquisa, ao
histórico lugar social de sonhos e esperança: as famílias da
agricultura familiar, de alguma maneira, sempre depositaram no
associativismo e na organização cooperativa uma esperança de poder
melhorar, através de suas múltiplas práticas, as suas condições
de vida. Assim, esperamos poder contribuir para a compreensão do
sentido econômico da ação cooperativa e do conteúdo social,
político e cultural da organização cooperativa.
O cooperativismo é uma prática
social, em cujo centro estão questões do mundo da vida,
especialmente as ligadas a sua base material. Como prática social
está condicionada a diferentes tempos e lugares. Diante do quadro de
profundas transformações, pelas quais passa a sociedade
contemporânea, ressurge o cooperativismo, especialmente, no campo do
trabalho, da economia, com diferentes sentidos e funções. Em muitas
circunstâncias, as cooperativas aparecem mais como meios de
garantir a “inscrição na estrutura social”, procurando evitar a
exclusão social. Em outras circunstâncias, a cooperação se
constitui em um instrumento de poder nas relações econômicas do
mercado.
Organizações cooperativas nascem,
como fenômenos sociais complexos, da articulação e da associação
de indivíduos que se identificam por interesses ou necessidades,
buscando o seu fortalecimento pela organização e
instrumentalização, com vistas a objetivos e resultados,
predominantemente, de ordem econômica. A cooperação é, em seu
princípio constituinte, na economia de mercado, um acordo racional
de sujeitos sobre algo, isto é, a economia, e os seus interesses e
necessidades frente à produção e distribuição de bens e
riquezas. Esse acordo se desenvolve, política e operacionalmente,
nos espaços da associação e da empresa cooperativa, mediada pela
comunicação.
A economia envolve
aspectos de ordem técnica e política. É algo construído,
inacabado, dinâmico, submetido a interesses. É um espaço
entrecruzado de poder técnico e de poder político, no qual atuam os
seus agentes e que é produzido a partir do conhecimento dessa dupla
dimensão e relação. Assim, no espaço da organização
cooperativa, se fazem presentes também questões sociais, políticas
e culturais, que perpassam a sua natureza associativa e seu caráter
instrumental.
A cooperação é uma
ação que decorre de um ato de vontade política de indivíduos que
passam a se identificar como sujeitos e atores, a partir de
necessidades ou interesses comuns, em um determinado contexto social.
Passam a pensar e agir de uma forma ordenada e esclarecida,
associando-se na interação, com vistas à realização de seus
objetivos. Normalmente, trata-se da afirmação de necessidades e
interesses econômicos, no contexto do mercado, isto é, os
associados buscam a valorização de seu trabalho. A cooperação,
como tal, pode ser definida como um ato racional, de inteligência,
pelo qual o contexto da realidade se torna compreensível, permitindo
a ação organizada dos sujeitos sobre ela. Essa realidade pode ser a
da produção e distribuição de riquezas, isto é, a realidade do
mercado. Os associados produzem clareza a respeito da realidade e do
contexto que os envolve, organizam ações de intervenção, em favor
dos seus objetivos comuns. Assim, constituem-se atores no complexo
jogo das relações econômicas e sociais do mercado. Pela
organização cooperativa buscam constituir poder nas relações de
mercado.
Uma
cooperativa pode ser definida, teoricamente, como um espaço de
poder. Um poder buscado pela cooperação. Porém, esse espaço de
poder não existe em si mesmo. Ele existe em função de objetivos e
interesses concretos, a partir dos quais passa a ser articulado
socialmente, (...) o espaço de poder desses indivíduos é
organizado no contexto da correlação de forças e interesses que
agem sobre a produção e a distribuição dessa produção na
sociedade. Na economia de mercado, essa organização se dá em
relação ao exercício do poder, isto é, em relação à atuação
da cooperativa no contexto desse mercado. (...) Pela organização
cooperativa os indivíduos buscam o poder de inserção no mercado:
onde desfrutam de uma posição individual de força econômica
inferiorizada (Frantz, 1986 p. 56).
Organizações cooperativas abrigam
diferentes relações de poder, diferentes práticas e ações de
educação. Nessas práticas ou ações educativas ou relações de
poder podemos encontrar interações do tipo comunicativo, isto é,
entre os associados que discutem sobre a cooperação, ou do tipo
estratégico, interações técnicas de mando, nos espaços
operacionais da empresa. A educação e o poder são questões
fundamentais, inerentes às organizações cooperativas, fundamentais
às condições de estabilidade do empreendimento cooperativo. Tanto
as relações do ato cooperativo quanto as relações dos negócios
cooperativos se consolidam pela gestão adequada dessas duas
questões, inerentes à associação e à empresa com finalidade
co-operativa.
O poder é organizado no contexto da
correlação de forças e interesses que agem sobre a produção, a
sua posse e distribuição. As diferentes relações de poder ocorrem
nos espaços da associação e da empresa, ou no espaço que se
constitui entre esses dois pólos do empreendimento cooperativo.
Em entrevista, no ano de 2000, junto
aos associados da COTRIJUÍ – Cooperativa Regional Tritícola
Serrana Ltda., 91,1% responderam que a cooperativa representa força,
poder. Somados aos 5,7% que responderam que apenas, em parte,
representa força e poder, verifica-se que 96,8% dos associados
entrevistados acreditam que a organização cooperativa representa
poder. As razões apontadas para essa crença estão 60,6%
fundamentadas no campo político, isto é, na associação, e 25,2%
na empresa, quer dizer, no campo econômico. Apenas um entrevistado
respondeu que a força, o poder da cooperativa, reside na
legislação.
Isso revela que o associado tem consciência do poder de associação
e organização, percebe-se como força.
A questão do poder aparece como um
conjunto de relações presentes nos processos formais de
funcionamento, sejam eles de domínio, uso e controle do
conhecimento, do saber tecnológico de produção, uso e controle da
informação, da comunicação, da administração ou da operação
técnica das atividades e objetivos da cooperativa. Está nos
espaços da organização, entre as pessoas ou grupos de associados,
está nas relações com os agentes do mercado.
A educação como ação social ou como prática social aparece,
muitas vezes, de forma difusa, associada a processos de comunicação,
de interação entre os associados, dirigentes, funcionários ou
outros interlocutores, presentes no espaço da cooperação. Aparece
como uma ação “entre sujeitos” ou como uma “prática sobre
outros”, procurando influenciá-los em suas idéias, modos de
pensar, de interpretar a vida social, especialmente a da realidade
cooperativa, sugerindo ou levando-os a comportamentos e visões de
mundo, favoráveis à natureza da prática cooperativa.
De acordo com a mesma pesquisa realizada, junto aos associados da
COTRIJUI, 73,2% estão concordam que a participação em práticas
cooperativas é uma espécie de “escola da vida”, 19,1% concordam
em parte e 7,6% não concordam. Dos entrevistados 29,3% relacionam
esse sentido educativo com a formação de ordem mais política,
vinculado ao caráter associativo, 21,7% relacionam isso à formação
geral, ao conhecimento, vinculada à informação, à visão de
mundo, à construção de valores, ao estímulo à aprendizagem e
17,2% referiram-se à formação de ordem técnica, relacionado à
empresa, à administração, à economia, ao que acontece na
propriedade, na produção.
Escreve Boufleuer (1997, p. 22), “que toda e qualquer ação
educativa constitui um tipo de interação humana”. Do mesmo modo
pode-se afirmar que todo e qualquer tipo de poder constitui uma
relação humana. Educação e poder acontecem na interação humana.
Portanto, na interação humana de organização e funcionamento de
uma cooperativa, produz-se educação e constrói-se poder. Isso
acontece em função da “ordem social” que se busca construir. A
organização e o funcionamento da cooperativa é uma “ordem
social”, primeiramente, em relação ao grupo cooperativo, em
relação aos seus integrantes que precisam estabelecer normas de
comportamento, de interação, de orientação de suas ações
individuais e coletivas. Mas, também, o empreendimento cooperativo é
o meio de construção de uma “ordem social” maior, de relações
de mercado mais amplas, que os seus atores querem constituir, em
vista de necessidades e interesses.
Interpretando Habermas, Boufleuer (1997, p. 23) escreve que
para a viabilidade de uma ordem social, é necessário
que se estabeleçam certos padrões de interação que permitam um
entrelaçamento regular e estável de ações. Para que isso ocorra é
necessário que as ações sejam coordenadas segundo regras, ou seja,
que obedeçam a um mecanismo de coordenação.
Em relação à organização cooperativa, isso nos permite dizer que
a educação para a cooperação obedece a um ‘poder de
direcionamento’, a um mecanismo de coordenação das práticas
educativas, proveniente do pacto associativo-cooperativo, celebrado
pela vontade política dos sujeitos. A educação cumpre uma função
construtora das condições necessárias à cooperação.
Em decorrência desse entendimento e de acordo com concepções
habermasianos, nas práticas ou ações educativas e nas relações
de poder, inerentes às organizações cooperativas, pode-se
encontrar interações do tipo comunicativo ou do tipo estratégico
que se constituem em seus mecanismos de coordenação. As interações
comunicativas entre os cooperantes acontecem, predominantemente, no
espaço associativo, quando discutem e decidem sobre a organização
da cooperação e definem os objetivos a serem alcançados. As
interações estratégicas ocorrem no espaço da instrumentalização
co-operativa, quando da realização dos objetivos.
Na associação-cooperativa, esse “poder de direcionamento”
estará embasado em uma interação comunicativa, isto é, em uma
interação entre iguais, de um para o outro, viabilizando-se o pacto
de direcionamento da organização. Teoricamente, de acordo com a
legislação cooperativa, todos os associados têm os mesmos
direitos e deveres, isto é, os mesmos poderes na organização e
funcionamento da cooperativa.
Pelo menos, em termos legais essa igualdade está posta, podendo
servir de base para as relações de poder no exercício das práticas
cooperativas.
No pólo da organização cooperativa, isto é, na
instrumentalização-cooperativa, o processo de poder é
coordenado por um mecanismo de interação de tipo estratégico, isto
é, por uma relação hierárquica de um sobre o outro, do tipo
empresarial. Porém, em função da natureza da organização, esse
pólo deve funcionar sob “controle de direcionamento” do poder
político da associação-cooperativa, evitando-se a
“politização” das funções burocráticas e técnicas em si.
Por politização entende-se, aqui, uma atitude de supremacia, de
mando, orientadora dos interesses e finalidades da organização e
funcionamento da cooperativa.
A “politização” dos setores de apoio, segundo o conceito de
organização e funcionamento de uma cooperativa, representaria uma
ruptura da noção de empresa-cooperativa, onde as relações
de poder devem obedecer a uma estrutura técnica, funcional,
executiva, sob controle, em última instância, dos associados. Na
organização e funcionamento de uma cooperativa existem aspectos
associativos, políticos, e aspectos organizativos, técnicos, cuja
dinâmica relacional se constitui em núcleo central diferenciador de
sua gestão.
A gestão de uma cooperativa precisa considerar essas diferenças, os
seus significados, que podem representar elementos de estabilização
da aliança cooperativa. A compreensão da natureza da aliança de
economias individualizadas é condição básica à educação para a
cooperação.
Ao se buscar distinguir entre associação e organização,
encontra-se um suporte teórico-conceitual, na senda do pensamento
sociológico de Karl Mannheim. As noções de associação e
organização, em Mannheim, permitem uma reflexão sobre essa dupla
"natureza" de uma cooperativa: associação-cooperativa
e empresa-cooperativa. Contribuem para entender o
funcionamento de uma organização cooperativa, do que vai por dentro
de uma prática de cooperação. São caminhos conceituais que ajudam
na leitura e compreensão das questões de educação e de poder em
organizações cooperativas.
Na associação-cooperativa estão as pessoas com seus
desejos, seus interesses ou necessidades, seus sentimentos, suas
paixões e vontades. Nesse espaço definem os seus objetivos, mas que
“continuarão em presença” com os demais aspectos da vida dos
associados, exigindo, constantemente, uma ação comunicativa,
orientada pela racionalidade de suas opções.
Na empresa-cooperativa
está a instrumentalização, está a estrutura, a estratégia, estão
os mecanismos de realização dos interesses e objetivos que as levou
a se associarem. A associação é o lugar dos acordos, dos
debates, a organização é o lugar das regras, do contrato,
da co-operação. Isso implica em diferentes relações de poder, em
processos educativos.
Os sujeitos desenvolvem uma conduta racional em suas relações de
identificação, uma conduta racional de associação, de cujo
processo nascem formas de organização que instrumentalizam seus
interesses e objetivos. Pela comunicação, no espaço da associação,
organizam-se e estruturam seus instrumentos de ação co-operativa,
desencadeando processos educativos e construindo relações de poder.
Por isso, pode-se afirmar que organizações cooperativas se
constituem a partir de dois pólos, o associativo e o
co-operativo-instrumental, perpassados por processos de educação e
poder. Na associação-cooperativa está a vontade política e
na empresa-cooperativa está o poder da ação instrumental
dessa vontade.
A racionalidade da cooperação na economia de
mercado
Para Mannheim (1962, p. 299) associações "são conscientemente
organizadas com uma finalidade definida, racional. Não compreendem
todos os aspectos da vida de seus membros, e é possível ingressar
nelas, ou deixá-las, livremente".
Na definição do seja
uma organização cooperativa, além do aspecto associativo em si,
temos o de organização instrumental consciente. Associar-se,
racionalmente, significa fazer uma escolha, uma opção, de acordo
com uma finalidade clara, consciente, obedecendo, portanto, ao
princípio da livre adesão, em favor de uma organização com
outros. É um ato racional, de luz, de clareza, dos que se associam,
em favor de finalidades específicas: redução de custos, melhorias
de preços, agregação de valor, ganhos de qualidade, de segurança,
de competição, de poder nos espaços do mercado etc.
Mannheim afirma, embasado em diferentes abordagens sociológicas, que
o termo racionalidade é usado em dois sentidos: o de substancial e o
de funcional. A racionalidade substancial define um ato de
pensamento, de conhecimento. A racionalidade substancial existe,
segundo ele, quando um ato de pensamento revela "percepção
inteligente das inter-relações dos acontecimentos de uma
determinada situação" (Mannheim, 1962, p. 63). Como tal,
pode-se interpretar esse ato de pensamento como fundamento de uma
vontade política que se converte em ação na relação entre
pessoas e que leva a escolhas, a opções, pela percepção
inteligente das inter-relações dos acontecimentos, pelo
esclarecimento de quem se associa. Esse conceito de racionalidade
substancial pode ser empregado para definir e explicar a opção
pela associação-cooperativa, por parte de quem percebe as
vantagens da cooperação. Portanto, trata-se de uma idéia política,
esclarecida, carregada de vontade, apontando finalidades, interesses.
O ato associativo é, assim, sob esse aspecto, um ato
substancialmente racional, pois está fundado na percepção
inteligente, no princípio da livre adesão.
Nesse caso, os associados estão conscientes, esclarecidos, com
relação a sua opção. Quando não ocorre um ato dessa natureza,
isto é, quando não existe um ato substancialmente racional de livre
adesão à cooperação, uma opção esclarecida pela cooperação, o
bom funcionamento de uma organização cooperativa, fundada em
objetivos econômicos, pode ser prejudicado. Impulsos, desejos ou
sentimentos, conscientes ou não, Mannheim denomina de
“substancialmente irracionais”. Nesse caso, participar de um
empreendimento cooperativo, fundado em impulsos, desejos ou
sentimentos, seria uma irracionalidade.
No nosso entender, no caso do cooperativismo agrícola brasileiro,
especialmente, das chamadas cooperativas de trigo e soja, além da
presença e função do Estado em seu surgimento e desenvolvimento,
grande número de produtores rurais tornaram-se associados não por
uma percepção inteligente do caminho cooperativo, por uma
opção de livre adesão. Chegaram ao cooperativismo pelo caminho das
políticas de incentivo ao cooperativismo por parte do Governo, pelo
caminho das políticas de incentivo à modernização agrícola, ou
mesmo pela adesão às idéias cooperativistas como solução aos
seus problemas econômicos, porém, carentes de informações e
conhecimentos a respeito da complexidade da natureza de uma
organização cooperativa.
Conseqüentemente, em muitos casos, passou a existir uma “cooperação
dependente” dos incentivos governamentais, de falsas expectativas
ou mesmo de irracionalidades, como desejos, esperanças, sentimentos.
Naturalmente, nesse caso passou a existir o risco à estabilidade do
empreendimento cooperativo por conta de uma lacuna na compreensão
dos acontecimentos, isto é, na capacidade de decifrar os
acontecimentos do contexto de inserção da cooperativa.
Certamente, não se pode generalizar a explicação, mas, em muitas
circunstâncias concretas, não se pode desconhecer que a falta de
compreensão do sentido e significado das políticas oficiais de
incentivo à cooperativismo, pode ter prejudicado o desenvolvimento
de algumas cooperativas.
É evidente que a estabilidade da cooperativa depende mais dos
resultados gerados, das expectativas atendidas. Mas, caso não houver
uma ação adequada para a superação da condição de “cooperação
dependente”, pela percepção inteligente, pela compreensão do seu
sentido e significado, pela construção de uma opção
esclarecida, existe o risco de frustrações no quadro social. A
dependência, na verdade, significa uma ausência, uma alienação da
condição de associado racionalmente orientado e permite o risco de
mau uso político ou operacional da cooperativa. A construção de
uma opção esclarecida, racional, é função da educação
para a cooperação que deve possibilitar o entendimento do sentido e
dos significados da organização cooperativa.
Mannheim afirma que o termo racional não é usado em sociologia
apenas para designar atos de pensamento ou conhecimento. O termo
também é empregado no sentido funcional, de funcionamento de uma
organização em direção a seus objetivos. O termo racional é
usado no sentido de caracterizar "uma série de medidas
organizadas de forma a levar a um objetivo previamente definido,
recebendo todos os elementos dessa série de atos uma posição e um
papel funcionais" (Mannheim,1962, p.63). O conceito é usado
para caracterizar uma situação de organização funcional, na qual
os comportamentos dos integrantes de uma organização são
'funcionalmente racionais', isto é, "cada ato tem um papel
funcional na consecução do objetivo final" (Mannheim,1962,
p.63). Refere-se à distribuição das funções e papéis dentro de
uma organização, tendo como referência os seus objetivos. O campo
da racionalidade funcional está mais na empresa-cooperativa.
No entanto, a percepção e a compreensão dessa racionalidade
funcional, por parte dos associados, dirigentes ou não, é de
fundamental importância para o desempenho e a estabilidade de uma
cooperativa, pois a racionalidade funcional é condicionada pelos
objetivos da organização. Uma organização cooperativa não pode
negligenciar o objetivo, a razão de sua existência sob o risco de
se desestabilizar. Objetivo e racionalidade funcional compõem uma
equação cujo resultado é a estabilidade da cooperativa.
A qualificação do quadro social de uma cooperativa, em função dos
comportamentos funcionalmente racionais, independentemente das
posições na estrutura hierárquica da organização, exige um amplo
trabalho de educação, de formação. Essa educação para a
cooperação deve ser orientada pela racionalidade funcional da
organização cooperativa.
Segundo Mannheim, associações são "grupos concretos de
contornos definidos, compostas de membros que se reuniram para certas
finalidades objetivas" (1962, p. 303). Esse conceito corresponde
à noção de associação-cooperativa: um grupo concreto,
definido e com finalidades objetivas. Nessa noção está implícita
a afirmação de que cooperativas são espaços de poder. Como
“grupos concretos” com “finalidades objetivas” procuram
exercer poder, em direção aos seus objetivos, ao mesmo tempo em que
influenciam o comportamento dos seus membros, de acordo com seus
estatutos, regulamentos e normas de convivência ou de funcionamento,
"deixando, não obstante, margem para uma variedade de decisões,
para a multiplicidade de opiniões sobre a oportunidade de
determinada política" (1962, p.303). A associação, pelo
princípio da livre adesão, deve constituir-se em bases
democráticas, abrigando a multiplicidade de opiniões para que se
viabilize a participação política, condição essencial para sua
estabilidade. A estabilidade de uma organização cooperativa depende
de uma orientação estatutária e de normas de comportamento,
produzidas no processo dialógico da associação-cooperativa. O
direcionamento da cooperativa não elimina a possibilidade da
democracia, da multiplicidade de opiniões.
Dois aspectos importantes com relação à associação-cooperativa
merecem ser destacados, a partir do pensamento de Mannheim: existem
finalidades definidas, objetivas para a associação, isto é, existe
uma racionalidade funcional e existe espaço para a discussão,
inclusive, com a liberdade de adesão, um dos princípios do
cooperativismo. Assim, sob essa ótica, estão dadas e fundadas as
condições da participação política e da participação econômica
dos associados, base para a estabilidade do empreendimento
cooperativo. Deve a participação política ser uma ação
coordenada com referência aos objetivos definidos, isto é,
funcionalmente racional.
Segundo o autor, na associação o comportamento dos seus membros
é “racionalizado”, mas não “racionalmente organizado”, isto
é, a associação se dá em função de objetivos definidos, mas não
se constitui na organização. Observa Mannheim (1962, p.303) que os
grupos associativos "são enformados por um espírito que leva à
regulamentação racional do comportamento". No caso de uma
associação-cooperativa, isto é, com vistas à
instrumentalização cooperativa, esse é o espírito
cooperativo.
O comportamento é orientado pelos objetivos da associação, mas não
está regulamentado, organizado, em função desses objetivos. Existe
um espírito que leva a sua organização racional, à
regulamentação. É função da educação para a cooperação
desenvolver esse espírito cooperativo.
Para Mannheim (1962, p.303), "se a regulamentação for mais
além, se o comportamento dos indivíduos que participam dessa ação
coordenada for cuidadosamente calculado e predeterminado, e sua
eficiência puder ser estabelecida em termos mais ou menos
quantitativos", quando esse comportamento é 'racionalmente
organizado', então "a associação se transforma em
organização", isto é, no caso da organização cooperativa, a
associação-cooperativa se instrumentaliza, estruturando sua
empresa-cooperativa, o seu poder operacional. No processo da
organização ocorre a regulamentação do comportamento, em função
dos objetivos estabelecidos na associação.
Assim, transpondo esse raciocínio à organização cooperativa, a
participação política tem seu espaço privilegiado na
associação-cooperativa. A participação econômica na
empresa-cooperativa é regulamentada, racionalmente
organizada, em função dos objetivos estabelecidos. O comportamento
co-operativo dos associados na empresa-cooperativa
necessita ser racionalmente organizado, através de normas, regras,
contratos. Através da participação econômica acontece,
efetivamente, a co-operação. Pela participação política
os associados buscam garantir o poder de controle sobre a
co-operação. Esse controle é importante para a
transparência das práticas de cooperação, da qual decorre a
confiança e a fidelidade dos associados. Desses aspectos específicos
de organização decorrem conseqüências e desafios particulares à
administração de um empreendimento cooperativo. Empreendimentos
cooperativos são estruturas de comportamento racionalizado e
organizado, isto é, são empresas-cooperativas, sem demérito
à dinâmica da inteligência emocional do campo cooperativo,
presente na associação-cooperativa. A prática do poder de
gestão é condicionada por aspectos que exercem influência no
sentido da estabilidade da organização cooperativa.
O lugar do poder da
administração
De acordo com Mannheim (1962, p.303) nas estruturas instituições de
"comportamento racionalizado e organizado", as atividades
são padronizadas e "não somente seus processos básicos, mas
seus objetivos finais e os meios usados para atingi-los, foram
calculados antecipadamente e são, nesse sentido, organizados".
No caso da empresa-cooperativa, de comportamento racionalizado
e organizado, isso traduz o espaço da gestão. A administração
"não pode ser criada ao acaso, ela implica num objetivo
pré-definido” (Mannheim,1962, p.304). Os objetivos precisam ser
definidos na associação-cooperativa que constitui o campo
político da organização, isto é, as atividades tecnoburocráticas
são precedidas pelas atividades políticas. Mannheim (1962, p.304)
observa que, em se tratando de assuntos sociais, "a
administração só pode ser imposta quando as atividades deixam de
ser políticas", isto é, a administração tecnoburocrática de
uma cooperativa deve ser despolitizada. Essa visão contempla a noção
técnica da administração de cooperativas, sob controle político
dos associados.
Identificar nas formas de organização e nas práticas
administrativas de uma cooperativa um controle social, na verdade,
permite identificar diferentes relações ou tipos de poder em
organizações cooperativas. O poder político dos associados, o
poder técnico de gestão da burocracia, o poder de influência das
cooperativas, no contexto da realidade social em que atuam.
Daí a importância da necessidade do debate na
associação-cooperativa sobre a administração, isto é,
sobre as necessidades, os interesses, os objetivos da organização
que, uma vez definidos, passam à esfera técnica, operacional, onde
devem ser operacionalizadas as decisões dos associados. Entende-se a
administração como atividade técnica e operacional, embora
condicionada e direcionada pelo poder político. O poder político
tem seu fundamento nas necessidades, interesses e objetivos da
associação-cooperativa. O poder da burocracia deve estar
submetido a esse poder político.
Pelo caminho do pensamento de Mannheim, pode-se afirmar que na
associação-cooperativa estão as atividades políticas, "o
tipo de ação grupal em defesa de opiniões e valores finais",
enquanto que na empresa-cooperativa está a administração
que "não luta e não determina finalidades, mas apenas
constitui um meio de colocá-las em prática" (Mannheim, 1962,
p.304). Desse modo, na organização cooperativa, a associação,
como expressão política do ato cooperativo, submete a empresa, o
instrumento administrativo, aos seus objetivos e finalidades
centrais. Submete a burocracia, o espaço técnico da administração.
Ou, em outras palavras, na associação-cooperativa está a
vontade política, o controle da gestão, e na empresa-cooperativa
está a função de seu cumprimento, estão os mecanismos
operacionais técnicos da instrumentalização do ato cooperativo.
Na empresa-cooperativa as atribuições e funções técnicas
administrativas são predeterminadas, politicamente, no espaço da
associação-cooperativa. Os comportamentos dos associados, a
suas relações co-operativas, determinadas pelos objetivos e
finalidades centrais da associação, no espaço da
empresa-cooperativa são predeterminados e coordenados,
através de estatutos, regulamentos e normas, debatidos e acordados
na associação-cooperativa.
Finalmente, ainda convém observar o que afirma Mannheim com
relação ao poder de decisão nas organizações. Segundo ele (1962,
p. 304), "os que controlam a política (...) dirigem a
organização". Os associados devem exercer o controle político
nas organizações cooperativas, devem dirigir, dar o direcionamento
para as ações administrativas. Dirigir não é a mesma coisa como
administrar. Dirigir é dar a direção; é direcionar o sentido da
organização; é dar o sentido e o significado da gestão aos que se
ocupam das suas funções tecnoburocráticas. A ocupação e o
desempenho dessas funções pode-se definir como sendo a ação do
gerenciamento, da administração. O conceito de direção contém
uma dimensão mais política, enquanto o de administração carrega
um sentido mais técnico.
Assim, a ação estratégica deve estar submetida à ação
comunicativa. Levando-se esse raciocínio para dentro da organização
cooperativa, conseqüentemente, se impõe a importância da esfera da
associação-cooperativa. Para que a organização cooperativa
seja, de fato, a expressão dos interesses e objetivos dos
associados, é preciso que sejam fixados os mecanismos de seu
controle político, através de uma estrutura de poder que viabilize
a participação política, a racionalidade e a transparência da
gestão. Esse aspecto recoloca a importância do processo educativo,
de qualificação, na cooperativa. Em razão da natureza da
organização cooperativa - associação e empresa - a
educação, enquanto formadora e qualificadora de seus integrantes,
se constitui em um dos aspectos fundantes de sua estrutura de poder,
de seu controle político, de sua gestão. Mannheim, ao se referir às
ações políticas e administrativas em grupos organizados, enfatiza
a necessidade de formação e qualificação de seus integrantes.
Afirma Mannheim (1962, p.304) que é preciso “preparar dois tipos
de homem. Um, capaz de dirigir-lhes a política, deve ter iniciativa
política no sentido amplo da expressão; o outro deve ser capaz de
realizar essa política, exatamente, com eficiência indiscutível".
Ao se transpor esse entendimento de Mannheim para uma organização
cooperativa, especialmente para as cooperativas agrícolas
tradicionais, nos deparamos com os dois principais grupos humanos,
presentes nessa organização, o dos associados, incluídos nesse
grupo os seus dirigentes eleitos, e o do corpo técnico-burocrático,
isto é, seus funcionários administrativos. Esses dois grupos
compõem, respectivamente, o poder político, um pode de instituição,
e o poder tecnoburocrático, um poder atribuído, um poder
instrumental de gestão técnica. Ou seja, os associados compõem o
poder da organização, da direção, e o corpo
técnico-administrativo faz uso do poder instrumental para a
administração da ação cooperativa, a serviço da realização dos
seus objetivos. Por isso, a formação e a qualificação são
tarefas ou funções centrais da educação em organizações
cooperativas. Certamente, o sucesso do empreendimento cooperativo
guarda relação direta com a formação e qualificação dos
funcionários, dirigentes e associados.
Na relação dinâmica desses dois pólos de poder, em suas práticas,
podem vir a existir conflitos de poder. Esses conflitos não são de
todo negativos. Podem constituir-se em energias de qualificação da
organização e do funcionamento de uma cooperativa. No entanto, os
seus aspectos negativos podem ser evitados, amenizados, ou superados
pela comunicação, pela formação e qualificação de seus
componentes. Volta-se, assim, à importância da comunicação e da
educação em cooperativas como um mecanismo de superação do
paradigma clássico de organizações burocráticas. Pela comunicação
e educação se constrói o modelo de gestão participativa, centrado
na valorização do capital social que os associados e os
funcionários podem representar em organizações cooperativas.
Em razão da natureza da organização cooperativa - associação
e empresa - a educação, como formadora e qualificadora de seus
integrantes, se constitui em um dos aspectos fundantes de sua
estrutura de poder, de seu controle político, de sua gestão. Por
isso, comunicação e educação, em organizações cooperativas, não
devem envolver apenas os associados, mas também aqueles que venham
somar-se a elas pelo seu trabalho, pelos serviços técnicos ou
gerais, necessários ao empreendimento cooperativo.
Enfim, de acordo com Mannheim (1962, p. 305), "a organização e
a administração são formas de controle social tipicamente
modernas". Identificar nas formas de organização e nas
práticas administrativas de uma cooperativa um controle social, na
verdade, permite identificar diferentes relações de poder em
organizações cooperativas. Trata-se do poder da burocracia,
localizado na operacionalidade, no funcionamento da
empresa-cooperativa, isto é, na administração, e do
poder da influência, em si, das organizações cooperativas, no
contexto da realidade social em que atuam.
Relações entre poder político e poder
tecnoburocrático
Quando economias familiares, como as de agricultores, se associam e
se instrumentalizam para cooperar entre si, em função de suas
dificuldades e interesses, essa organização produz um grande volume
de atividades e serviços especializados, fora de suas unidades
familiares de trabalho. Esse trabalho vai além daquele que já
acontece nas unidades econômicas associadas. Nem sempre os
associados conseguiriam, pessoalmente, dar conta desse trabalho,
mesmo que quisessem, sob pena de reduzirem a atenção às exigências
de suas economias. A organização dessas atividades depende do
trabalho e da incorporação do serviço de terceiros. Isso exige uma
estrutura, uma ordem, com normas, funções e procedimentos, que se
pode chamar de burocracia, constituindo a base para um novo poder, o
poder da burocracia. As ações estratégicas da gestão dessa
organização e de suas atividades devem estar submetidas à ação
comunicativa dos associados entre si. Para que a organização
cooperativa seja, de fato, a expressão dos interesses e objetivos
dos associados, é preciso que essa burocracia esteja, de fato, sob
seu controle. É preciso que sejam fixados os mecanismos de seu
controle político, através de uma estrutura de poder que viabilize
a participação política dos associados, a racionalidade e a
transparência da gestão.
Moacir Gadotti (1998, p. 24), ao tratar das relações de poder
inerentes aos processos de educação, faz referência ao poder dos
tecnoburocratas que “concebem as coisas e os fenômenos
estaticamente, como funcionam hoje; estabelecem, por isso, normas
fixas e abstratas, incrementam a massificação e a uniformização,
reduzindo as possibilidades de participação efetiva dos indivíduos
nas decisões”. Existem os conflitos de poder nas organizações
cooperativas que têm seu núcleo na relação de seus dois pólos.
O autor, no entanto, não condena o progresso técnico e o
planejamento, mas alerta que a tecnoburocracia tende a controlar a
organização do processo educativo, da escola, supervalorizando o
planejamento e o conhecimento técnico-organizacional, a hierarquia,
as estruturas, impondo suas crenças e valores, fazendo predominar a
razão técnica em desfavor da criatividade, da participação
política dos indivíduos.
Por isso, o quadro técnico burocrático, especialmente, necessita de
oportunidades de educação e qualificação para o desempenho de
suas ações no processo de administração de uma cooperativa.
Necessita do aprofundamento da compreensão da natureza e do sentido
de uma organização cooperativa. Essa formação poderá, não só,
amenizar os conflitos entre a participação e a burocracia, mas
qualificar o novo paradigma de organização em afirmação no
contexto das transformações da sociedade contemporânea: o
paradigma centrado na participação.
Porém, com relação à burocracia, à administração burocrática
e seu significado, em organizações cooperativas, é importante ver
também o que Lapassade diz sobre o fenômeno burocrático. Embora o
diga em outro contexto, diferente que o de uma organização
cooperativa, a sua observação pode ser transposta para o ambiente
de uma cooperativa, para o momento de valorização da participação,
de revisão do paradigma da operacionalidade organizacional.
Afirma Lapassade (1989, p. 201) que
o que
há de novo no modo de produção e de domínio burocrático é, se
podemos dizer, o seu “altruísmo”, para usar um termo moral, ou
ainda o seu caráter “social”, ou, melhor ainda, o seu caráter
“democrático”.(...)
A
burocracia, ao contrário, não apenas se apresenta como a serviço
da coletividade, como a serve efetiva e realmente. (...) O burocrata
(...) trabalha, sacrifica-se, administra, orienta, planifica,
“serve”. (...)
O que é
preciso reprovar na burocracia e nos burocratas é, antes de tudo, o
fato de que alienam fundamentalmente os seres humanos, retirando-lhes
o poder de decisão, a iniciativa, a responsabilidade de seus atos, a
comunicação.
O que
Lapassade diz ser preciso reprovar na burocracia e nos burocratas
constitui-se em um risco permanente na ação de gestão de
cooperativas. Esse risco, de algum modo está na lógica do processo
burocrático e na ação comportamental dos burocratas. Na
organização burocrática há um determinismo implícito; está
implícita a superioridade da técnica, da razão técnica,
instrumental, da interação de tipo estratégico. Na organização
cooperativa essa ação tem seu sentido na ação da
empresa-cooperativa e,
de algum modo, pode-se dizer que está em contradição com as ações
no espaço da associação-cooperativa.
No cenário da organização e funcionamento de uma
cooperativa, pode a questão da participação política do associado
aparecer como contraposição ao processo burocrático, gerando
conflitos.
Max Weber desenvolveu
o conceito de organização burocrática, diante da necessidade de
superação das relações antigas de dependência pessoal, de
vassalagem, de nepotismo, presentes em organizações de origem
feudal e pré-capitalista. Apontou a necessidade serem substituídas
pelas relações de dependência formal, legal, hierárquica,
funcional, superando-se a visão metafísica pela visão da certeza,
do concreto.
Com a crise da visão
da certeza, com o questionamento do próprio capitalismo, diante das
dificuldades ambientais e sociais de produção e distribuição de
bens e mercadorias, diante dos limites do meio-ambiente, da
competição, da concentração, da superprodução, da
sustentabilidade política e da segurança do sistema, nasce o
questionamento daquilo que foi o instrumento da organização da
produção capitalista, a burocracia. A burocracia que marginalizou o
indivíduo, a sua criatividade, a sua subjetividade, a sua
emotividade, cede lugar, mesmo resistindo, à participação, a um
novo paradigma, menos determinista.
A construção ou a
regeneração da democracia, como expressão da prevalência da
política sobre a economia, através de uma participação organizada
e efetiva, é um dos maiores desafios dos tempos atuais.
A participação
aparece como a emergência de um novo modelo de organização, de um
novo paradigma de organização, centrado na valorização da
criatividade, na valorização do capital humano. A participação
como um processo de distribuição de poder implica em profundas
mudanças na concepção e funcionamento das organizações, tanto do
ponto de vista da reorganização do poder nas organizações, quanto
da reorganização das estruturas das organizações.
O novo paradigma
precisa descobrir e desenvolver os seus instrumentos de gestão. O
discurso da participação se legitima na crise do processo
burocrático, da organização burocrática. Na organização
participativa, criativa, está presente a ação comunicativa,
participativa. O novo modelo se assenta no princípio da simplicidade
organizacional, na descentralização do poder e da competência, se
assenta no princípio de comando pela cultura, pelos valores (Silva e
Costa, 2001).
Na organização burocrática, de
maneira simplificada, pode-se dizer que está implícita a idéia de
que, em seu funcionamento, os aspectos técnicos são mais
importantes que a liberdade da criatividade humana. Essa visão,
hoje, não tem mais a mesma força do passado. Verifica-se uma
passagem de uma visão mecânica, determinista, burocrática, para
uma visão de organização criativa e participativa, cooperativa e
social. Afirma-se uma nova visão de organização, embasada na
valorização da criatividade humana, na participação. Isso implica
profundas mudanças na concepção, estruturação e funcionamento
das organizações. Implica em resgatar o capital humano, o capital
social, em todas as suas dimensões, a favor de uma organização
flexível, participativa e criativa. Como conseqüência disso, é
preciso desenvolver novas formas de gestão, assentadas na
descentralização, na simplificação, na valorização da
criatividade humana, na comunicação. As cooperativas, certamente,
estão entre as organizações que oferecem o maior potencial de
superação do paradigma burocrático em favor desse novo modelo,
centrado na valorização da criatividade dos indivíduos, através
da participação. Nesse sentido, as cooperativas podem também se
constituir em importantes espaços do desenvolvimento de uma
sociedade.
As funções
tecnoburocráticas em uma cooperativa com o perfil do novo paradigma
de organização – centrado na criatividade, na valorização do
capital humano - devem estar submissas aos interesses e necessidades
daqueles que decidem sobre os seus rumos, sua direção. Estamos
falando de organizações cooperativas que mantêm quadros
técnico-administrativos contratados, distintos de seu quadro
associativo. Porém, em cooperativas que não tenham esses quadros
distintos, isso também é válido. Em tais organizações também
pode se instaurar o poder do antigo modelo burocrático, através do
poder de grupo, a partir da divisão social do trabalho. Talvez esse
seja um dos maiores dilemas das organizações desse gênero.
De acordo com Lapassade (1989, p.
203), porém, o poder da burocracia é "um poder que consiste em
'fazer trabalhar', em dirigir, em orientar, em utilizar informações,
em tomar decisões, em planificar". De acordo com o autor, esse
poder supõe a aceitação pela coletividade. No caso de uma
cooperativa, supõe a aprovação dos associados, isto é, essa
coletividade é a associação-cooperativa. No espaço da
associação deve ocorrer a discussão, a tomada de decisão sobre o
poder burocrático, suas funções e atribuições. Esse é o caminho
que pode desviar dos conflitos ou da contradição, inerentes ao
processo político e operacional da gestão de uma organização
cooperativa.
Segundo Lapassade (1989, p. 205),
é evidente que essas decisões visam a permitir as
trocas, a garantir o funcionamento, a programar, a planejar, a servir
em princípio à coletividade. No entanto, o único objetivo
explicitamente almejado é o crescimento material das riquezas
(realizado ou não) e não o desenvolvimento psicológico dos
indivíduos. Esse crescimento material, desde que se realize (...)
termina, na realidade, por aumentar a massa dos bens (...).
O poder de decisão da burocracia, no caso de uma cooperativa, deve
estar relacionado à operacionalidade, à obtenção de resultados.
Porém, o controle pela coletividade deve ter o sentido de impedir
que aumento da massa dos bens não signifique apenas o aumento do
patrimônio. Isso nem sempre significa uma melhora da economia dos
associados, mas pode ser argumento e base, simplesmente, para a
melhora salarial dos burocratas, por exemplo, ou para ampliar o seu
espaço de poder.
Afirma
Lapassade (1989, p.205) que
o burocrata que visa não
apenas a administrar mas também a aumentar os instrumentos de
produção, a provocar novos investimentos, a prever planos a longo
prazo, não visa apenas a aumentar as possibilidades de trabalho, mas
sobretudo a criar objetivos novos sobre os quais exercerá a sua
administração; ele aumenta, portanto, em realidade, o seu poder,
além de aumentar a sua reputação.
Lapassade, na verdade, fala de uma autocriação de poder, em favor
do burocrata, do técnico, que poderá ser usado para negociar
vantagens ou ganhos salariais. De acordo com Lapassade (1989, p.
206) o fenômeno burocrático "é uma forma de domínio sui
generis. Ele não aparece como uma forma de parasitismo (...),
mas, ao contrário, como o motor, o núcleo central, o cérebro da
sociedade", fazendo-se útil, necessário e essencial. Por esses
espaços e mecanismos a burocracia constrói e estabelece o
seu poder, inclusive o de se recompensar.
No
entanto, às vezes, em organizações cooperativas, o poder do
burocrata se baseia mais na dificuldade dos associados em tomar
decisões, em ter acesso à informação ou saber usá-la, em ter a
qualificação adequada e exigida para operar a organização
complexa da empresa-cooperativa. Por isso, torna-se necessária
e é fundamental em organizações cooperativas a atividade de
educação, de formação, de qualificação técnica, a informação,
a transparência das operações de gestão, a participação, a
democracia. Desses aspectos decorre, não só, mas também, a
estabilidade da organização cooperativa. A satisfação dos
associados não depende apenas de fatores materiais, mas também de
aspectos psicológicos e políticos, inerentes à
associação-cooperativa, à participação política, que
podem constituir-se em vetores de força para equilibrar as relações
de poder entre os mecanismos da burocracia e as necessidades e os
interesses dos associados. A promoção desse equilíbrio é tarefa
central dos dirigentes eleitos. Cabe aos dirigentes promover as
relações de comunicação, de participação, entre a
associação-cooperativa e a empresa-cooperativa.
O poder que vem do mercado
Além das influências e controles dos
grupos locais sobre o comportamento de seus integrantes, afirma
Mannheim (1962, p. 305), que "há controles sociais que se
baseiam na interdependência dos atos humanos, sem se centralizarem
em grupos, comunidades ou associações concretas. Isso significa que
nossos atos podem ser controlados pelos atos de outros, mesmo que não
sejam de membros de um grupo definido." Existem atos de controle
externo à organização cooperativa. Esses atos de controle podem
partir do contexto cultural, político ou econômico, de inserção
social da organização cooperativa ou de seus associados. Na
condição de membros da sociedade, de uma comunidade, estes podem
ser influenciados, controlados, pela interdependência de relações
sociais.
Segundo Mannheim (1962, p. 305 e 306), esse controle acontece através
de uma categoria sociológica que denomina de estrutura de campo
- conhecido na ciência física como campo magnético
- e que se situa "entre os grupos concretos orgânicos e as
grandes organizações". No caso de uma cooperativa, essa
estrutura se situa no campo de relação da organização com o
meio-ambiente maior, especialmente, nas suas relações com o
mercado, onde estão as grandes organizações. Essas grandes
organizações ou estruturas não precisam ser apenas as empresas,
podem também ser as estruturas de pensamento, de valores, de
cultura, de interesses, de política. São estruturas de controle, de
poder, que se manifestam pela propaganda, pela educação etc. O que
importa é observar que temos, assim, a noção de uma estrutura
de campo entre dois pólos, a organização
cooperativa e o mercado.
O autor identifica no mundo do comércio - intercâmbio econômico,
transporte, viagens comerciais, correspondência, escritas e
especulação - uma estrutura de campo. Por meio dessa
estrutura de campo é exercida influência, controle, poder,
sobre os indivíduos, sobre os grupos concretos organizados, isto é,
sobre a organização cooperativa e também sobre seus associados,
individualmente. Do contexto de inserção no mercado, brota uma
influência sobre a associação-cooperativa e a
empresa-cooperativa.
Diz Mannheim (1962, p. 306 e 307) que
a pressão existente no campo é transmitida pelas
atividades interdependentes dos indivíduos (...). Sempre que os
conflitos e a concorrência se fizerem sentir com todo o ímpeto, e
os indivíduos tiverem de fazer suas adaptações, sempre que é
impossível prever a tendência dos acontecimentos, as leis que
governam as ondas magnéticas da estrutura de campo têm mais efeito
sobre a natureza humana do que o costume tradicional ou a organização
racional.
Os associados passam a ser orientados e articulados uns aos outros
pelos sistemas de valores externos do mercado e que os pressionam
mais que os seus valores ou o poder de sua cultura.
Em uma cooperativa, isso significa que, através das atividades dos
associados, lhes é transmitido um poder de controle que vem de fora
e que pode ser mais forte que o seu poder de organização
associativa. Esse poder maior está ancorado na concorrência que se
estabelece entre as economias individuais dos próprios associados,
na tentativa de sobrevivência pela disputa, nos espaços do mercado.
O mercado pressiona os associados no sentido da melhora ou do aumento
da produção de suas economias individuais, tornando-os, na verdade,
mais competitivos e concorrenciais, inclusive, entre eles. Em
conseqüência, o mercado pode ter mais efeito sobre eles que os
princípios associativos ou a solidariedade tradicional. Embora se
associem contra pressões do mercado, as forças do mercado se impõem
à organização. Passa a ser aceita a idéia de que quem não puder
acompanhá-las deve deixar o espaço aos que o conseguem fazer.
Corre-se o risco de ver sucumbir, assim, a solidariedade tradicional
dos associados e a sua própria associação, diante do poder maior
que lhes vem da estrutura de campo do mercado. Pode-se
estabelecer uma relação de poder de competição entre os
associados, a partir de fora, da estrutura de campo.
Entre a associação-cooperativa e a empresa-cooperativa,
a partir das relações de mercado, funciona um espaço de poder,
isto é, desenvolvem-se relações econômicas e políticas, de
influência sobre o comportamento dos associados. A estrutura de
campo do mercado exerce uma pressão sobre a
associação-cooperativa e a empresa-cooperativa. A
estrutura de campo, isto é, as forças presentes nas
relações de mercado, influenciam o comportamento, condicionam a
vida dos associados. Essa estrutura exerce um controle, um
poder sobre eles, através de diferentes mecanismos: pela imposição
de padronização dos seus produtos, pelas tecnologias de produção,
inclusive, pela imposição de horários e ritmos de trabalho.
A cooperativa representa, como empresa, a instrumentalização
de defesa, racionalmente organizada, dos interesses e objetivos da
associação-cooperativa. Porém, pela via de acesso ao
mercado, ao campo de estrutura, ela também impõe,
paradoxalmente, um comportamento racionalizado e organizado, pela
assistência técnica, pela informação, pela padronização,
vinculada aos interesses externos. As forças externas são maiores e
se convertem, assim, inclusive, em desejos, interesses e objetivos
dos associados.
Por sua vez, também pode ocorrer, no interior da
associação-cooperativa, uma reação a essas forças,
isto é, de construção de poder político, de tal forma que a
estrutura de campo acaba se constituindo, nesse sentido, um
mecanismo de estímulo à nova organização de poder. Nessa
interação de forças, desenvolvem-se adaptações e reações que
implicam em processos de educação e aprendizagens, qualificando os
associados em termos políticos e técnicos.
Afirma Mannheim (1962, p. 307) que, "sob a influência
segmentária dessas estruturas de campo, desenvolvem-se novos traços
de caráter do homem econômico que diferem dos ideais de sua
comunidade orgânica".
Sob essa influência, alteram-se as noções ideais de organização
cooperativa, ressocializando, reeducando os seus membros associados,
em função do mercado. Elaboram eles novas aprendizagens. Na
estrutura de campo se estabelece uma pressão, um controle
sobre a cooperativa, de sua natureza associativa e empresarial, sobre
os seus integrantes. Essa pressão é transmitida através das
atividades interdependentes dos sócios, em razão do ato
co-operativo, dos seus interesses e compromissos mútuos. Isso se
torna perceptível, concretamente, pelas exigências de padronização
e qualidade dos produtos dos associados, em caso de agricultores. O
mercado lhes dita as normas de procedimento. Eles se controlam, em
última instância, frente a isso.
Nas relações de mercado fluem também as normas da cooperação e
que devem ser assumidas por todos os associados. Constitui o mercado,
dessa forma, um mecanismo de comunicação entre os cooperantes pelo
qual fluem as relações de poder entre os próprios associados.
Abre-se, assim, pelo mercado, uma oportunidade de aprofundar as
relações cooperativas entre eles. É da natureza desse processo e
de suas possibilidades, como ambiente cognitivo, que decorre a
importância da democracia, da participação, da transparência,
como princípios de funcionamento de organizações cooperativas.
O diálogo, a interlocução, o debate, entre os associados, são a
base do processo educativo e de aprendizagem, que se estrutura nas
organizações cooperativas. A comunicação se constitui como uma
possibilidade real de poder para os associados, frente ao mercado.
Como tal, a comunicação é elemento essencial da razão
cooperativa. A comunicação é um espaço de poder e um campo de
educação, do qual depende o sucesso do empreendimento cooperativo,
de sua estabilidade.
A estrutura de campo do mercado, em relação a uma
organização cooperativa, exerce uma pressão sobre a
associação-cooperativa e a empresa-cooperativa. É
um espaço de poder e um campo de educação, do qual depende o
sucesso do empreendimento cooperativo, de sua estabilidade. A
qualidade do produto e a padronização, reclamada pela via das
relações comerciais, exercem pressão sobre os produtores,
obrigando-os ou levando-os a mudanças e melhorias em seus processos
produtivos.
Pelas relações de mercado, isto é, pela pressão das suas
exigências, no espaço cooperativo, através da comunicação,
também pode ser influenciada a gestão dos processos de produção
em geral e, de modo específico, outros aspectos mais, como a
ecologia, o meio-ambiente natural, produzindo-se novos
comportamentos, novos processos de trabalho. A qualidade do produto e
a padronização, reclamada pela via das relações comerciais,
exercem pressão sobre os produtores, obrigando-os ou levando-os a
mudanças e melhorias em seus processos produtivos. Novos
comportamentos de trabalho ou de relações de trabalho, podem ser
observados a partir da pressão exercida pela estrutura de campo,
materializada pelas relações comerciais. O consumidor ou o
comércio, como mecanismo de relações, exerce controle, poder, pela
relação de compra e venda. Os produtores precisam aceitar esse
controle, em razão de seus próprios interesses, fundantes da
cooperação. Assim, o poder de controle se constrói também na
relação comercial. O produtor se orienta por essa relação de
poder, de controle de qualidade, para se qualificar tecnicamente.
Nas relações de mercado podem também fluir princípios éticos,
que se pode definir como sendo de cooperação: uma cooperação com
relação ao outro-cooperado e ao outro-consumidor.
Essa é uma questão que começa a ser reconhecida, hoje em dia, como
sendo um desafio à formação da consciência de quem produz e de
quem consome. É um novo espaço de educação que se estrutura nas
relações de mercado. Nesse espaço se funda a lei de proteção ao
consumidor, inclusive. O empreendimento cooperativo pode se
constituir em um campo privilegiado de educação desse processo de
formação, construído nas relações internas de cooperação, nas
relações com o outro-cooperado, nas relações de
interdependência ou integração entre as cooperativas, no caso de
redes de cooperação, ou nas relações com o outro-consumidor.
De acordo com Karl Manheim (1962, p. 288) "o principal objetivo
da educação é habitualmente conseguir uma conformidade social
básica". Essa não precisa ser, necessariamente, uma função
negativa, no sentido do enrijecimento das estruturas sociais,
impedindo a superação das contradições a ela inerentes, impedindo
a dinâmica de seu aperfeiçoamento democrático. A educação também
trata dos padrões de comportamento dos indivíduos na sociedade. A
maior discussão e atenção crítica devem estar voltadas ao tipo de
sociedade que se quer. A educação decorre desse processo; ela vai
no sentido da afirmação das suas conquistas.
A educação para a conformidade social básica e a regulamentação
da associação-cooperativa é traduzida por um comportamento
racionalizado coletivo. Para Mannheim (1962, p. 301) "o
comportamento racionalizado coletivo começa abolindo os elementos
simbólicos tradicionais, em favor dos que são essenciais à função
do órgão em questão, julgado exclusivamente pelas necessidades da
situação presente". Isso exige que os integrantes da
associação dialoguem a respeito do seu projeto comum para que se
construa um entendimento coletivo, evitando que valores, hábitos ou
interesses não adequados à nova organização grupal possam gerar
instabilidade. Da racionalidade comunicativa nasce a importância da
educação, do diálogo, da interação comunicativa, da
transparência do projeto para os seus próprios membros integrantes.
São condições de estabilidade da organização cooperativa. A
educação é, assim, ao mesmo tempo, uma exigência da organização
cooperativa e uma conseqüência. A construção de poder, por sua
vez, é um objetivo fundamental da organização cooperativa, move o
processo associativo do projeto cooperativo.
Pelas atividades de educação é produzida uma nova “ordem social”
entre os membros da associação, embasada em novos valores e
interesses, relacionada com os objetivos da associação. São
produzidas as condições para um trabalho coletivo, de cooperação.
Assume a educação para a cooperação uma função de viabilização
de uma “ordem social” que regulamenta, acima de tudo, a
associação-cooperativa.
Pode-se falar, nesse sentido, de um processo de transformação
social e cultural do grupo de associados. Essa “transformação
social-cultural” também causa seus efeitos sobre os grupos
familiares ou comunidades às quais pertencem os membros da
associação-cooperativa. Diz Mannheim (1962, p. 301) que
"freqüentemente não podemos transformar a ordem social sem
modificar os seres humanos e suas convenções". Pois, é por
essa porta das modificações dos associados que entra a
influência da cooperativa sobre as comunidades e seus membros,
fazendo brotar uma certa identidade cultural e comportamentos comuns
a todos, mesmo que não sejam membros diretos da cooperativa. Hoje,
de certo modo reconhecendo esse fenômeno sociocultural, o movimento
cooperativo internacional já incorporou a relação com a comunidade
em seus princípios de organização e funcionamento de uma
cooperativa, como princípio de sua responsabilidade social, da
preocupação com a comunidade. A organização cooperativa contém
sentidos e significados mais amplos, para além dos interesses de
seus associados. Nesse espaço da preocupação com a comunidade
estabelecem-se também relações de poder e processos de educação.
Educação e poder são dois fenômenos sociais que em suas práticas
se entrecruzam. Mais que isso, são fenômenos que se fazem
presentes, mutuamente, um no outro, dificultando, sob certos
aspectos, a sua “separação”. Isto é, como fenômenos sociais
um contém o outro dentro de si, como resultado de suas práticas. E,
como tal, de acordo com Paulo Freire (2001, p. 23), não existe “uma
educação neutra, que se diga a serviço da humanidade, (...) uma
prática política esvaziada de significação educativa”.Isto é,
toda educação, voltada à construção do social contém uma
intenção política, em sentido pedagógico amplo, e, como tal,
também é poder. Ou melhor, a educação é a construção de poder
com base no conhecimento.
Afirma Paulo Freire (2001, p. 23 e 24) que
do ponto de vista crítico, é tão impossível negar a
natureza política do processo educativo quanto negar o caráter
educativo do ato político. Isto não significa, porém, que a
natureza política do processo educativo e o caráter educativo do
ato político esgotem a compreensão daquele processo e deste ato.
A organização cooperativa como espaço político de relações
sociais e econômicas, voltado à construção de poder,
especialmente, em suas práticas econômicas, expressa um caráter
educativo. Os associados, construindo poder para a busca de soluções
práticas, relativos aos seus problemas, induzem a um processo de
aprendizagem. Nesse processo manipulam informações, aprendem e
constroem conhecimentos, o se que traduz em educação. Educam-se,
assim, nas relações sociais e econômicas de cooperação e de
competição. Essa é uma das funções da educação cooperativa:
racionalizar e organizar o comportamento dos associados, dentro de um
'espírito cooperativo', em função de uma “ordem social”,
contida na associação-cooperativa.
Nesse processo educativo também se desenvolve poder
político e de tal modo que as ações do processo educativo se
entrecruzam ou se identificam, ou mesmo se confundem, com a questão
da construção de poder político. Educar-se para o poder político
com a finalidade de construir uma nova “ordem social” é uma
etapa fundamental do processo de organização cooperativa. Organizar
uma cooperativa é buscar construir poder, especialmente, nas
relações econômicas com o mercado. No entanto, no interior da
cooperativa existem e se desenvolvem outras relações de poder.
Os
associados reclamam o controle, expressam o conflito com a
burocracia, com a administração, quando não sentem a cooperativa
como expressão de seus interesses e objetivos, quando não conseguem
participar. Buscam afirmar poder no interior da cooperativa com
relação a sua estrutura de organização e funcionamento.
Em uma
pesquisa realizada, junto aos associados da COTRIJUÍ, em 2000, a
respeito da relação entre os associados e a administração, foi
possível obter alguns dados interessantes com relação ao fenômeno
do poder. Na opinião dos entrevistados, quando perguntados se o
associado consegue influenciar a forma de administração da
cooperativa, 62,8% responderam afirmativamente e 14,1% responderam
que em parte essa influência é possível. Apenas 23,1% responderam
que não conseguem influenciar a administração. Essa influência
para 51,2% dos entrevistados é possível pela participação
política, isto é, pelo diálogo, através de reuniões e outras
formas de comunicação. Apenas 5,7% indicaram a participação
econômica como a forma de influência sobre a administração,
enquanto 16,5% indicaram a estrutura de representação como o
mecanismo de influência. Perguntados se deveriam ser consultados
antes de decisões importantes, 90,6% responderam que sim e 8,8%
disseram que em parte sim, isto é, nem sempre. Isso significa que
99,4% dos associados desejam acompanhar as grandes decisões da
cooperativa. A razão dessa comunicação entre administração e
quadro social se deve ao clima de confiança que pode gerar (33,3%),
ao fato de serem os associados os donos (22,4%), à necessidade de
comunicação (12,8%) ou à relação de dependência entre associado
e cooperativa (5,1%). Caso não forem consultados 59,1% dos
entrevistados acatam e reagem, 24,2% cumprem as decisões e 4,7%
reclamam.
Os dados revelam a importância da comunicação direta entre
associados e administração, bem como uma relação de dependência
do associado com relação à importância econômica da cooperativa.
A relação econômica para com a cooperativa, por isso, não é
vista como um mecanismo de poder preponderante. A explicação disso
pode estar relacionada ao fato de que a maioria dos associados ter
pequenas economias e enxergar na cooperativa um instrumento de força
política, mais que econômica, quando levado ao terreno da economia
individual. De acordo com os dados da pesquisa 77,5% dos
entrevistados têm menos de 50 hectares de terra. Os dados também
podem ser uma expressão de confiança dos associados na cooperativa.
Parece ter sido um dos erros históricos em muitas cooperativas, uma
das falhas de gestão do funcionamento do empreendimento cooperativo
o fato de que muitos administradores, executivos e funcionários
burocratas, passaram a fazer a política da organização
cooperativa, submetendo a associação-cooperativa ao seu
comando. Em conseqüência disso, muitas vezes, submetiam também as
atividades do processo educativo, suas funções, transformando-as em
instrumentos de submissão do associado a uma organização cada vez
mais distante de suas necessidades, interesses e objetivos. Afirma
Morin (2000, p. 19): “Quanto mais técnica torna-se a política,
mais regride a competência democrática”. O poder burocrático em
organizações cooperativas apresenta certos riscos: a marginalização
do associado.
A burocracia, ao transformar-se em poder político, tende a se aliar
às exigências do mercado. Com essa inversão e aliança
perde-se a essência da cooperação, não se realiza o projeto
cooperativo, como um processo social, político e cultural, com a
finalidade de dar poder aos associados.
Ao nosso ver, essa inversão, parece ter sido um dos aspectos da
crise do cooperativismo, especialmente, a crise das cooperativas de
trigo e soja no Estado do Rio Grande do Sul. As relações de poder
eram exercidas pelo Estado, pelo capital ou por 'grupos de poder',
dentro da organização cooperativa, representados por grupos de
cooperados ou pela burocracia, os quais nem sempre estiveram
associados aos interesses e objetivos comuns da maioria dos
associados. Isso se constitui uma inversão de ordem nas relações
de poder entre a associação e a empresa cooperativa. Essa inversão
contém o risco da instabilidade da organização cooperativa.
O associado deve exercer o controle político. Ele dá o sentido à
ação administrativa. Por isso, diálogo, interlocução de saberes,
comunicação de conhecimentos e informações entre associados,
dirigentes, executivos, burocratas e quadro funcional são
fundamentais para a estabilidade do empreendimento cooperativo. Entre
a associação-cooperativa e a empresa-cooperativa, os
dois pólos da organização cooperativa, deve existir um constante
fluxo de informação e comunicação, gerando transparência e
confiabilidade.
A
transparência e a confiabilidade são essenciais à
estabilidade da organização cooperativa, mas elas devem estar
embasadas em processos políticos e técnicos qualificados. Ou, em
outras palavras, são produtos de um processo
educativo-pedagógico, voltado ao projeto cooperativo e de
relações de poder, enraizadas e fundadas na associação-cooperativa.
Bibliografia
BOUFLEUER,
José Pedro. Pedagogia da ação comunicativa: uma leitura de
Habermas. Ijuí: Ed. UNIJUI, 1997.
COSTA,
Manuel da Silva. O reencantamento da
organização: a organização participativa e a mudança de
paradigma científico. In: CADERNOS DO
NORDESTE, Série Sociologia, Sociedade e Cultura 3, vol 16(1-2), p.
11-20. Braga/Portugal: Centro de Ciências Históricas e Sociais da
Universidade do Minho, Campus de Gualtar, 2001.
FRANTZ,
Walter. Organização e poder em cooperativas. In: Contexto e
Educação, ano 1, nº 3, jul./set. 1986, p. 56-66.
FREIRE,
Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se
completam. 41ª ed. São Paulo: Cortez, 2001.
GADOTTI,
Moacir. Pedagogia
da Práxis.
2ª ed. São Paulo: Cortez, 1998.
LAPASSADE,
Georges. Grupos, organizações e instituições. Tradução
de Henrique Augusto de Araújo Mesquita. 3ª ed. Rio de Janeiro:
Francisco Alves, 1989.
MANNHEIM,
Karl. O homem e a sociedade. Estudos sobre a estrutura social
moderna.Tradução de Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Zahar
Editores, 1962.
MARQUES,
Mario Osório. Escrever é preciso. O princípio da pesquisa.
Ijuí: Editora UNIJUI, 1998.
MORIN,
Edgar. A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o
pensamento. Tradução de Eloá Jacobina. Rio de Janeiro:
Bertrand Brasil, 2000.