segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

DIÁLOGO INTERTRANSDISCIPLINAR COMO DESAFIO NA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS

  


 




 
 

DIÁLOGO INTER/TRANSDISCIPLINAR COMO DESAFIO NA EDUCAÇÃO

DE JOVENS E ADULTOS

 

Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação nas Ciências do Departamento de Pedagogia da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul como requisito parcial para a obtenção do Título de Mestre em Educação nas Ciências.

 

 

SUMÁRIO

 

 

 

INTRODUÇÃO.. 8

 

1 O DIÁLOGO EM FREIRE E A AÇÃO COMUNICATIVA EM MARQUES. 14

1.1 O diálogo em Freire. 15

1.2 Marques e a ação comunicativa. 20

 

2 A INTERTRANSDISCIPLINARIDADE COMO DESAFIO NA CONSTRUÇÃO

DE CURRÍCULOS PARA A EJA.. 25

2.1 Multidisciplinaridade. 26

2.2 Interdisciplinaridade. 28

2.3 Transdisciplinaridade. 34

 

3 APROXIMAÇÃO ENTRE OS PENSAMENTOS DE FREIRE E MARQUES

NA EDUCAÇÃO.. 41

3.1 O ponto de partida teórico. 41

3.2 O diálogo como desafio na sociedade atual 42

3.3 O testemunho pessoal do educador 44

3.4 A interdisciplinaridade. 46

3.5 Reflexão. 49

 

4 RELAÇÕES DIALÓGICAS, INTERDISCIPLINARES E/OU TRANSDISCIPLI-NARES VIVENCIADAS EM UM PROJETO DE EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS NO MUNICÍPIO DE IJUÍ, RS. 51

4.1 EJA, uma modalidade de ensino. 51

4.2 O Projeto Alfabetiza Rio Grande na 36ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE) 56

4.3 O diálogo e a construção intertransdisciplinar no processo formativo de  

alfabetizadores para a EJA no Projeto Alfabetiza Rio Grande. 58

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS. 73

 

REFERÊNCIAS. 76

 

APÊNDICES. 79

 

 


 

INTRODUÇÃO

 

 

A Educação de Jovens e Adultos (EJA) no Brasil, em uma perspectiva popular e libertadora, coerente com o que nos foi legado por Paulo Freire, tem como desafio discutir os currículos dos seus processos formativos de maneira contextualizada, atenta às vivências e produções culturais dos seus educandos. Esta discussão abrange as visões desses educandos quanto à natureza, à sociedade e às vivências que constituem o cotidiano de cada um, e também quanto aos conhecimentos relativos às diversas ciências que constituem os currículos. Integra, ainda, ponderações sobre os aspectos éticos e políticos dos processos educativos (MARQUES, 1996b, p. 82), pois a EJA toma a si objetivos referentes à formação de jovens e adultos para o exercício da cidadania.

Com isso, a Educação de Jovens e Adultos é incitada a ser construída e (re) construída nas diferentes regiões nacionais, de acordo com as particularidades dessas, passando por alterações conforme o programa de cada governo (nacional, estadual e municipal) para a educação, o que inclui a formação dos educadores, o ensino e a aprendizagem em âmbito de alfabetização e pós-alfabetização e o apoio às instituições que são responsáveis por desenvolver os processos educativos.

Uma educação, nesta perspectiva, elege como prioridade - o diálogo - o tratamento orgânico e não discriminatório entre os saberes e entre as disciplinas nos currículos que propõe e trabalha. Esta relação pode ocorrer por vias diversas como a multidisciplinaridade, a interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade. A multidisciplinaridade tem sido definida e ocorre nas práticas educativas da EJA quando um tema é abordado por diversas disciplinas sem que haja uma relação direta entre elas. Nessa, os saberes diversos apresentam a mera aproximação ao objeto de conhecimento, por vezes até mesmo conflitiva (MARQUES, 1996b, p. 83). A interdisciplinaridade é entendida como duas ou mais disciplinas que se relacionam por meio de seus conteúdos curriculares para aprofundar o conhecimento; produz-se uma convergência e rompimento das fronteiras disciplinares. A interdisciplinaridade descarta ideias dogmáticas provenientes de campos de saber que se fecham em si mesmos e abre espaço a ideias divergentes e criativas.

A interdisciplinaridade se apresenta como uma alternativa à compartimentalização do saber, representando atitudes distintas em âmbitos diferentes do cotidiano. Nas Ciências Humanas a interdisciplinaridade encontra um de seus campos mais férteis e se realiza construindo ações educativas integradas. Esse tipo de integração opõe-se à fragmentação do conhecimento.

A superação da fragmentação do conhecimento se dará por meio da transdisciplinaridade, quando as ligações entre os conhecimentos se dão no interior de um sistema global no qual cada educador tem conhecimentos profundos associados a uma perspectiva ampla sobre o mundo. A transdisciplinaridade envolve a dialogicidade entre várias formas de conhecimento e de visões de mundo, visando à complementaridade. Corresponde a uma abordagem complexa, em que as divisões entre disciplinas deixam de existir; a um ideal no qual não existirão mais fragmentações do conhecimento.

Quando falamos em fragmentação do conhecimento, nos referimos à “desconexão” dos saberes culturais, sociais, históricos e disciplinares. Em práticas educativas leva à desconsideração do que o educando já sabe e traz para o ambiente escolar e que, muitas vezes, passa despercebido pelo educador. É também aquele “conteúdo dado” que ficou restrito a uma aula, a um projeto, a uma disciplina isolada; que não teve sentido algum para o educando e, às vezes, nem mesmo para o próprio educador; apenas “passou”, foi “conteúdo dado”, posto que estava previsto na grade curricular.

Essa fragmentação do conhecimento está associada a uma forma mecânica de repassar ou “depositar” conteúdos sem que o educando os (re)signifique, entenda para que serve e como se relaciona com outros conteúdos já aprendidos. Está associada a uma “educação bancária”, como caracterizava Freire (1997a).

Nossa proposta de pesquisa se dirige à EJA e define como objeto de conhecimento um programa que traz como objetivo realizar um diálogo intertransdisciplinar no decorrer de suas práticas. Trata-se do Projeto Alfabetiza Rio Grande, realizado no Estado do Rio Grande do Sul de 2003 a 2006. Esse programa de EJA intencionou construir currículos contemplando as culturas dos educandos, diversificadas e plurais. A pesquisa visa a analisar: Como isso aconteceu? Como foram tratados os conceitos de diálogo, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade presentes nas diretrizes do Projeto Alfabetiza Rio Grande? Como perpassaram as atividades da “formação continuada” dos alfabetizadores desse programa?

Situado entre os estudos na EJA, o presente trabalho tem como objetivos analisar uma prática de formação de alfabetizadores para compreender como se constrói a superação do tratamento disciplinar, fragmentado nos processos educativos escolares do Projeto Alfabetiza Rio Grande e como estão sendo tratadas as relações dialógicas entre os sujeitos que envolvem a educação no âmbito dessa prática.

Por termos participado como bolsista de iniciação científica durante o desenvolvimento do programa, nos anos de 2003 a 2006, realizamos um levantamento dos dados quantitativos sobre o movimento dos educandos e atividades realizadas pelas práticas de alfabetização; estudamos – os números[1] do projeto – e acompanhamos a formação continuada dos alfabetizadores. Posteriormente aceitamos o desafio de trabalhar como alfabetizadora voluntária no mesmo programa. O desafio de (re)significar o diálogo intertransdisciplinar na prática desenvolvida, porém, acompanhou-nos de forma intensa, levando à problematização do tema e constituindo-o proposição desta dissertação.

Para fundamentar teoricamente essa dissertação, recorremos a Paulo Freire, que aborda conceitos como diálogo, interdisciplinaridade e libertação. Em Mario Osorio Marques procuramos nos conceitos de ação comunicativa, interlocução de saberes, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade, rumo apontado para o tratamento não fragmentado e dialógico dos conhecimentos curriculares.

A produção de Freire quanto à Educação de Jovens e Adultos pode possibilitar uma análise crítica dos processos de ensino e de aprendizagem e contribuir para a percepção de inovações nos processos de alfabetização e de escolarização, principalmente no que tange à relação entre as disciplinas e os diversos saberes em circulação. Temos nesse autor os princípios dialógicos e a proposta de círculos de cultura. Ele concebe a educação como prática de liberdade que se opõe a uma Pedagogia que implica em uma visão de homem abstrato, isolado, descontextualizado, desligado do mundo, assim como também se opõe a uma concepção de mundo como realidade ausente dos homens (1997a, p. 70). Essas ideias, se levadas à prática, integram o educando da EJA a um trabalho pedagógico que valoriza um conhecimento intertransdisciplinar que não se fragmenta e que dá ao sujeito mais oportunidades de se relacionar com o outro, valorizar o que já sabe e a cultura do meio em que vive.

Marques, por sua vez, ao associar o princípio do diálogo à ação comunicativa, pode contribuir para a compreensão dos processos de EJA. Como recurso, afirma reconstruindo o paradigma da ação comunicativa, no qual a educação cumpre um diálogo de saberes, não uma simples troca de informações, mas uma busca do entendimento compartilhado por meio dos saberes que aportam, entre todos os que participem da mesma comunidade de vida, de trabalho, de uma comunidade discursiva de argumentação (MARQUES, 1997, p. 60). A educação, por esse olhar, assume papel ativo de aprendizagem coletiva, alargando o horizonte cultural, expressivo e interacionista-relacional entre os sujeitos com o mundo objetivo das coisas, o mundo social das normas e o mundo subjetivo das vivências e emoções. Nesse paradigma, a sociedade passa a ser considerada como uma teia de relações cada vez mais complexa e numerosa. O processo de ensino-aprendizagem é uma construção coletiva assumida por sujeitos específicos a partir de suas aprendizagens individuais e coletivas. A linguagem, sob esta abordagem, aparece como geradora de entendimento e fonte de integração social (BOUFLEUER, 2001, p. 27), o que contribui para haver potencial analítico e crítico dos educandos, amarrando informações e complexificando o conhecimento construído a cada instante no ambiente escolar.

A relação intertransdisciplinaridade leva o conhecimento a cruzar as fronteiras das próprias disciplinas e a estabelecer uma ponte que permita estudar fenômenos que se situam fora e além do âmbito das disciplinas existentes. Para ser alcançada necessita do diálogo como mediador nas relações educativas e epistêmicas.

Desta forma, a questão da intertransdisciplinaridade toca de perto o interesse dos educadores envolvidos com a EJA no Brasil, hoje. Se, no entanto, a EJA assume-se crítica e libertadora, a hipótese que aqui levantamos é a seguinte: não é impossível experimentar um salto para a superação do conhecimento instrumental, fundado na razão instrumental e suas demandas de especialização, assumindo a tarefa de favorecer a expressão da razão vital - trabalhando o cotidiano, formando professores na perspectiva da educação continuada, valorização dos sujeitos, valorização da cultura – e complexificando o conhecimento a ponto de torná-lo intertransdisciplinar.

Todo esse conjunto de reflexões e considerações apontaram para a necessidade de dividir a dissertação em quatro capítulos, que são complementares, pois tratam de questões teóricas e epistemológicas que partem de Freire e Marques, apresentando uma necessidade de situá-las no tempo e espaço da EJA, em que a pesquisa empírica ocorreu.

No primeiro Capítulo procuramos fundamentar o diálogo em Freire e a ação comunicativa em Marques, elencando alguns pontos que aproximam essas duas produções teóricas e podem auxiliar a construção de uma comunicação crítica e libertadora na EJA. O diálogo é visto como uma exigência existencial, um encontro no qual os sujeitos se solidarizam e refletem suas realidades. Em processos educativos implica debate em que onde se superam as contradições entre educadores e educandos na busca do conteúdo programático, respeitando a cultura de cada sujeito na percepção do objeto de conhecimento e levando-os a uma reflexão que aprofunda o modo de ver o mundo. Essa abordagem leva à crítica, à emancipação e à libertação. A educação, orientada por meio do diálogo, alarga o horizonte cultural e as relações humanas nos contextos onde ocorre e nas experiências que desenvolve. O diálogo na ação comunicativa permite uma visão integrada do conhecimento, dos conteúdos curriculares, relacionando-os articuladamente, em uma dimensão complexa.

No segundo Capítulo recorremos a conceitos que tratam das relações entre as disciplinas, partindo de alguns estudiosos do assunto antes de procurar os significados que esses conceitos assumem nos pensamentos de Freire e Marques. Mediante a busca da definição de multidisciplinaridade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade, mostramos que há possibilidade de interligar as disciplinas presentes no currículo de forma a romper com a fragmentação que as separa, e que as faz perder o sentido de totalidade na relação com o mundo. Essa busca pode levar à interdisciplinaridade e à transdisciplinaridade na EJA, sobretudo se associada ao diálogo.

No terceiro Capítulo buscamos fundamentar os caminhos que podem nos levar ao diálogo intertransdisciplinar na EJA. Primeiramente apresentamos o porquê de trazer Freire e Marques para o centro teórico desse trabalho. Ao realizarmos uma tentativa de aproximação crítica entre estes dois autores, pontuamos semelhanças no pensamento de ambos, que podem, na EJA, enriquecer a construção curricular, as práticas cotidianas em sala de aula e a construção do conhecimento dos sujeitos envolvidos nesse processo educativo. Em Freire e Marques procuramos identificar aproximações conceituais em pontos concernentes ao foco da reflexão da dissertação: o diálogo como desafio na sociedade atual, o testemunho pessoal do educador e a interdisciplinaridade. Esses pontos podem (re)fundamentar o diálogo intertransdisciplinar na EJA de forma coesa com a realidade contemporânea dessa modalidade de ensino.

Finalmente, no quarto Capítulo, apresentamos a EJA como uma modalidade de ensino – o Projeto Alfabetiza Rio Grande, desenvolvido no RS no período de 2003 a 2006 e analisamos como o diálogo e a construção inter/transdisciplinar estão presentes nas diretrizes político-pedagógicas do programa, especialmente nas formações dos alfabetizadores, no âmbito da 36ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE), do Rio Grande do Sul. A pesquisa foi dirigida aos professores formadores que atuaram na formação continuada de alfabetizadores, um de cada área (socio-linguística, histórico-social, sociocientífica/ matemática e ciências naturais e com a área do planejamento, avaliação e sistematização do conhecimento), de forma a instigá-los a falar sobre suas práticas.

Quanto à metodologia, realizamos três movimentos de análise e síntese: a pesquisa bibliográfica, a consulta a documentos e as entrevistas dirigidas aos professores-formadores que atuaram no programa e à coordenadora da formação de alfabetizadores, todos docentes da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí) – universidade  conveniada com a 36ª CRE para desenvolvimento do programa. Cada um dos formadores entrevistados representou uma área de formação. As entrevistas foram realizadas em dois momentos: o primeiro foi orientado por um questionário individual, com perguntas abertas, centrado em dois pontos principais: como se deram as relações dialógicas no processo formativo e como se constituíram relações interdisciplinares e transdisciplinares nos percursos formativos em questão. No segundo momento, reunimos os formadores entrevistados buscando uma reflexão sobre as questões pontuadas pela pesquisadora a partir dos depoimentos decorrentes das indagações captadas no questionário. As entrevistas foram semiestruturadas, contendo perguntas sequenciais, permitindo à pesquisadora ir criando novas questões de acordo com o que era respondido. Os roteiros das entrevistas dirigidas aos formadores e à coordenadora do Projeto Alfabetiza Rio Grande encontram-se em anexo nesta pesquisa. A análise realizada pela pesquisa integrou os dados empíricos e as informações obtidas na consulta aos documentos (especialmente às Diretrizes dos programa) (re)significados pela pesquisadora com base nas produções teóricas dos autores pesquisados.



[1] Número de alunos matriculados, número de alunos frequentando as aulas, número de alfabetizados em cada município onde havia turmas engajadas no Projeto Alfabetiza Rio Grande em parceria com a 36a Coordenadoria Regional de Educação, número de professores recrutados, número de trocas de professores, média da formação inicial de professores, remuneração, etc.


1. O DIÁLOGO EM FREIRE E A AÇÃO COMUNICATIVA EM MARQUES

 

 

Este Capítulo apresenta o pensamento dialógico freireano como princípio e orientação teórico-prática para a análise de uma proposta político-pedagógica de formação de professores para EJA, que será apresentada no Capítulo 4. Esta proposta é orientada por objetivos como realizar a formação de professores mediante atividades educativas que propiciam a reflexão, participação e a ação, transformando e humanizando as suas práticas na EJA[1]. Por essas razões, realizamos um estudo do que é o diálogo em Paulo Freire e o que ele pode possibilitar para as práticas de EJA. Ao mesmo tempo, recorremos à teoria da ação comunicativa, de autoria de Habermas[2] (re)significada no pensamento de Mario Osorio Marques para integrar esse movimento de análise.

Mediante referência a esses dois autores – Freire e Marques – pretendemos, então, trabalhar os conceitos de diálogo e da ação comunicativa, investigando um processo formativo na EJA de forma a compreender o que ele apresenta de humanista, dialógico, libertador, como trata a amplitude das vidas dos educandos cultural e viabiliza seu currículo; se esse supera, e como, a divisão rígida do currículo em disciplinas constituindo-se em um currículo intertransdisciplinar.

O diálogo freireano corresponde a uma questão-chave na captação das manifestações culturais, das experiências e práticas cotidianas, e cria condições para que as práticas pedagógicas se organizem democraticamente, possibilitando o desenvolvimento humano: as capacidades cognitivas, afetivas, políticas, estéticas e éticas do educando. Consideramos a hipótese de que o diálogo pode contribuir para integrar os conteúdos previstos na EJA.

A ação comunicativa, tratada por Marques, possibilita uma interação entre sujeitos, o que se realiza por meio de vivências cotidianas, relações argumentativas e comunicativas no espaço de processos educativos em que há produção de consensos. O autor defende uma comunicação racional, crítica e aberta, possibilitando uma prática educativa dialógica e de aprendizagem coletiva. Para existir essa comunicação, propõe a interlocução dos saberes, na qual educandos e educadores assumem papéis ativos na aprendizagem, o que ocorre em coletivos, respeitando e afirmando as identidades pessoais, reforçando o conceito de diálogo, ampliando a comunicação entre sujeitos e objetos de estudo.

Vamos acompanhar ainda, neste Capítulo, o que escreve Marques sobre a interlocução dos saberes na ação comunicativa, que é uma qualidade da educação para ele. O autor afirma que a educação se cumpre em um diálogo de saberes, não em simples troca de informações, mas na busca do entendimento compartilhado entre todos os que participem da mesma comunidade de vida, de trabalho, de uma comunidade discursiva de argumentação (MARQUES, 2002, p. 115-118).

 

1.1 O diálogo em Freire      

 

O diálogo é uma relação de conversação, comunicação, que gera a conscientização sobre um objeto desde o qual os sujeitos participantes podem levantar questionamentos. Em processos educativos, como os da EJA, o conteúdo do diálogo corresponde ao conteúdo programático da educação contextualizado. A busca dessa contextualização pressupõe participação de educandos e educadores.

Uma prática dialógica é essencial na concepção da educação freireana: ela oferece às pessoas condições de serem livres para se expressar e estabelecer encontros. Torna-se, então, uma oportunidade, espaço em que se expressa o pensamento verdadeiro: a exposição de um pensar acompanhada da disposição e possibilidade de compreensão do pensamento do outro.

É expressão da capacidade humana de se dirigir ao outro para estabelecer relações para a decifração e compreensão do mundo e para a fundamentação das práticas entre si, de modo a favorecer convergências, tornando essas não apenas em objeto de encontro, mas imperativo de justificação e/ou fundamentação dos atos humanos praticados.

O diálogo é uma relação de comunicação que gera a crítica e a problematização. Quem dialoga, o faz com alguém e sobre algo. O conteúdo do diálogo pode ser programático na educação.

Freire (1997a, p. 78-79) tratou o diálogo como encontro dos homens, mediatizados pelo mundo, para serem mais. Não se esgota na relação entre os sujeitos. O diálogo é uma exigência existencial. É encontro no qual os sujeitos se solidarizam; é refletir e agir transformando e humanizando o mundo.

Na educação escolar o diálogo não é apenas um método, mas uma estratégia para respeitar o saber do aluno que chega à escola. É uma exigência existencial, posto que é definido como encontro em que se solidarizam o refletir e o agir de sujeitos endereçados ao mundo a ser transformado e humanizado. Não pode ser reduzido a um ato de depositar ideias, conteúdos e ideais, nem tampouco pode se transformar em uma simples troca de conhecimentos a serem consumidos.

Freire vai ainda mais longe ao refletir sobre o diálogo. Afirma ser amor, por tratar-se de um ato de coragem e ancoragem ao outro, de compromisso para com a causa de libertação da humanidade:

                                                                                                 

Como ato de valentia, não pode ser piegas; como ato de liberdade, não pode ser pretexto para a manipulação, senão gerador de outros atos de liberdade. A não ser assim, não é amor. Somente com a supressão da situação opressora é possível restaurar o amor que nela estava proibido. Se não amo o mundo, se não amo a vida, se não amo os homens, não me é possível o diálogo. (FREIRE, 1997a, p. 80).

 

Analisando o diálogo, Freire constata a necessidade de examinar a palavra como mais do que um meio para que este se realize. Há duas dimensões essenciais da palavra: ação e reflexão. O diálogo é a práxis transformadora, que leva à conscientização, ao engajamento. Sem a dimensão da ação, perde-se a reflexão e a palavra se transforma em mero verbalismo. Por outro lado, a ação sem a reflexão se transforma em ativismo, que também nega o diálogo.

Na obra de Freire, encontramos menções para pensar o diálogo a partir do acolhimento, da reciprocidade e do livre-debate, processualmente regrado, reunindo sujeitos que agem como companheiros nas reflexões sobre os contextos e desenvolvimento dos processos educativos.

O diálogo tem uma condição de necessidade de coexistência: a reciprocidade. A reciprocidade implica necessariamente troca. Aceita tanto a semelhança quanto a diferença, destacando suas singularidades, mas não as tratando de maneira antagônica ao dialogar.

No diálogo há a exigência da humildade, pois ele é também o encontro de humanos na construção de aprendizagens, a partir do que já conhecem do objeto, sendo desafiados, uns pelos outros, a manterem com ele uma relação crítica e a conhecerem mais. Humildade, pois o ser humano que não tem humildade ou a perde, não consegue se aproximar dos outros. A humildade se expande a partir da aceitação e da contribuição dos outros, sem temor da superação de ideias e atitudes.

 

Não há, [...], diálogo, se não há humildade. A pronúncia do mundo, com que os homens o recriam permanentemente, não pode ser um ato arrogante. O diálogo, como encontro dos homens para a tarefa comum de agir, se rompe, se seus pólos (ou um deles) perdem a humildade. (FREIRE, 1997a, p. 80).

 

Para favorecer o diálogo, o educador não pode se colocar na posição ingênua de quem se pretende detentor de todo o saber. Deve se por na posição humilde de quem sabe que não sabe tudo, reconhecendo os educandos como alguém que tem uma experiência de vida, uma história, desde onde produzem conhecimentos singulares; são portadores de saberes.

Outra exigência encontrada para haver diálogo é a esperança, pois se os sujeitos nada esperam nada podem dialogar. Seus encontros passam a ser vazios. Então, não existe diálogo sem esperança; esperança no sentido de lutar e esperar virem as consequências dessas lutas. Enquanto o ser humano luta e reflete sobre sua luta, sua esperança não se torna uma “esperança vã”.

Exige um pensar crítico, solidário, capaz de comunicar e fazer dos atos educativos verdadeira educação, quando se superam as contradições entre educadores e educandos na busca do conteúdo programático, respeitando a visão particular de mundo dos sujeitos na percepção do objeto de conhecimento, mas também levando a uma reflexão que expande, aprofunda e torna compartilhado esse modo de ver o mundo. Essa abordagem leva à crítica, à emancipação e à libertação.

A fé é uma prioridade do diálogo, pois esse não pode existir sem a fé na humanidade. Essa fé, para Freire, no poder de cada um fazer e refazer, criar e recriar, na vocação de ser mais, não é privilégio de alguns eleitos, mas direito dos homens. Não a fé ingênua, mas aquela que leva à crítica; que visualiza as possibilidades de transformação de uma realidade opressiva; aquela que anima sujeitos por meio do diálogo a captar situações-limite e a caminhar na direção de construção do inédito-viável.

Ao mesmo tempo em que a fé se faz necessária na construção do diálogo, a confiança aparece como fator essencial nessa construção. A confiança em fazendo os sujeitos dialógicos cada vez mais unidos, se de fato os acompanha em seus atos. Falar algo e fazer outra coisa arruína a confiança humana. A confiança implica em testemunho que um sujeito dá aos outros de suas concretas intenções, e esse testemunho não existe se as palavras não coincidem com os atos. Dizer uma coisa e fazer outra, não levando as palavras a sério, não pode gerar confiança.

O diálogo promove um pensar crítico, capaz de problematizar os contextos, as práticas sociais e os sujeitos em relação. Por outro lado, sem o pensar crítico não há diálogo, e com a ausência da comunicação que este promove não há uma educação verdadeira, quando educadores e educandos superam contradições, (re)constroem aprendizagens e direcionam a ação.

O diálogo gera o pensar crítico, forjando entre seres humanos e o mundo um encontro sólido e solidário rumo à libertação da opressão; libertação da negação das diferentes subjetividades humanas e do preconceito diante delas. Sempre que for crítico é verdadeiro, pois permite que os sujeitos pensem não de maneira ingênua, sem valorizar a história, as experiências passadas, mas sim levando em conta um presente por elas contingenciado. No pensar ingênuo, o sujeito se acomoda ao presente, negando a si mesmo e à temporalidade, ou seja, seu estar no mundo “historicizado”.

O diálogo reforça a possibilidade de alteridade entre os sujeitos. Existe de forma comunicativa ou inexiste. Quando existe, aparece juntamente com a empatia e o sentimento de amor ao mundo[3] e aos seres humanos. Contrária ao sentido de alteridade, empatia e amor, a ausência de diálogo está fortemente ligada à ideia de opressão.

A proposta em análise[4] de Educação de Jovens e Adultos referenciada no presente estudo, em conformidade com a educação libertadora[5] de Freire, considera as experiências que cada educando já traz de seu ambiente de fora da escola, utilizando-as para estimular uma práxis educacional por meio do diálogo. O diálogo passa, então, a ser elemento importante de um paradigma educacional contrário às ações educativas que apenas depositam conhecimentos, sem que haja comunicação, reflexão e ação dos educandos.

Na ausência do diálogo, torna-se difícil considerar as diferenças entre os sujeitos, as desigualdades sociais, as histórias de vida de cada educando, as características culturais, religiosas, psicológicas, sociológicas do seu meio. Essa forma de educar, oposta à dialógica, é denominada educação bancária, por meio da qual apenas se depositam conhecimentos, sem a prática da reflexão e contextualização. A educação bancária supõe iguais os educandos que são diferentes e, por isso, não se dá conta que aprendem de maneiras diferentes.

O diálogo liberta o educando e o educador da opressão presente na educação bancária. A educação libertadora requer o diálogo, pois valoriza o interesse e iniciativa dos alfabetizandos, dando prioridade aos temas e problemas mais próximos das vivências dos educandos sobre os conhecimentos sistematizados.

Por ser dialógica, a educação libertadora é problematizadora e permite que se expressem as representações dos indivíduos sobre diversos temas, havendo reflexão e contextualização dos saberes nas aprendizagens. A participação do educando na investigação da sua realidade leva-o ao entendimento e à admiração do mundo. Essa admiração possibilita a capacidade de representá-lo, criticá-lo e transformá-lo.

Na educação libertadora, o diálogo existe como uma relação de troca horizontal entre educador e educando provocando uma atitude de transformação da realidade.[6]A educação libertadora passa a ser conscientizadora, pois além de procurar conhecer a realidade, busca transformá-la, uma vez que esta nem sempre corresponde ao que educandos e educadores desejam para si, para aqueles com quem interagem e para a sociedade.

Por propiciar o encontro entre os homens ante ao seu objeto de opressão, o diálogo pode incentivar a coragem de lutar em prol da sua libertação e, ao mesmo tempo, pela transformação de uma sociedade opressora, que desconsidera as diferenças entre os sujeitos; pode promover mudanças nas relações de poder; possibilita a cada sujeito colocar-se no lugar do outro e se comunicar de forma crítica e problematizadora.

No contexto da EJA, percebemos que a opressão social desde muito cedo atinge os educandos, cuja infância foi prejudicada pela falta de oportunidade de frequentar ou permanecer na escola. Já muito cedo esses sujeitos assumem responsabilidades com o trabalho doméstico e com o trabalho remunerado para ajudar suas famílias. E assim passam a vida, em meio à luta pela sobrevivência, sentindo a desvalorização do seu trabalho e a corrosão de sua autoestima perante a sociedade que humilha os “incultos”.

A conquista que é propiciada pelo diálogo, na EJA[7], é a conquista para a libertação dos educandos e educadores, não podendo ele ser um instrumento de dominação de um sujeito pelo outro. Nesta perspectiva dialógica, quanto mais se pronuncia o conhecimento ante ao mundo, mais os educandos e educadores se sentirão provocados a buscar respostas aos conflitos, problemas e contradições que identificam. Consequentemente, quanto mais incitados, mais serão levados a um estado de consciência crítica e transformadora diante da realidade.

 

1.2 Marques e a ação comunicativa

 

A ação comunicativa é uma construção teórica que faz uma crítica à racionalidade instrumental[8] que, com o processo de modernização, passou a prevalecer nas sociedades industriais. Foi desenvolvida por Jürgen Habermas – pensador que analisa a racionalidade como sistema operante da sociedade e se contrapõem à razão instrumental. Marques ressignifica essa teoria, demostrando como se expressa a racionalidade dos indivíduos mediados pela linguagem e comunicação na sociedade.

 

A ação comunicativa no mundo da vida se dá em contextos de livre conversação, isto é, sem que haja necessidade de prévia fixação de temas ou assuntos e sem a explicitação das regras a que todos se devem ater, regras, aliás, não outras que as supostas na simples disposição de homens se comunicarem. Mas esta simples disposição significa também o compromisso de, se necessário, os interlocutores aduzirem as razões em que julgam assentar-se suas pretensões de verdade, de retidão e de sinceridade. A ação comunicativa supõe, assim, uma comunidade concreta disposta à argumentação, isto é, disposta a mostrar que se sustentam racionalmente as pretensões levantadas nos atos de fala. (MARQUES, 1993, p. 99).

 

Marques (1993, p. 85-89) define a ação comunicativa como uma proposta de reconstrução da razão moderna, negando manifestações individualistas e subjetivistas ao buscar conciliar as perspectivas do mundo com a realidade dos sujeitos. Em suas construções teóricas, muda o foco de reflexão da razão instrumental para o de razão comunicativa. Esta última é focada na relação intersubjetiva entre os sujeitos capazes de se comunicarem, agirem e não mais na relação que separa sujeito e objeto do conhecimento priorizado na razão moderna.

Ao criticar a modernidade, especialmente a exaltação da razão instrumental na educação, Marques (1993) ressalta que esta tende a padronizar as práticas educativas e a deixar pouco espaço para que seus integrantes criem. Em sua crítica também, afirma que a educação voltada à razão instrumental não leva em conta as singularidades dos contextos em que ocorre. Estes contextos são complexos, estão sempre em movimento e, por isso, não é fácil conhecê-los. Por sua vez, têm elementos que, para serem apreendidos, necessitam de diferentes áreas do conhecimento e de um diálogo de saberes para se tornarem conhecidos. Aí, reforça a importância da ação comunicativa: que apresenta uma razão que se comunica.

Por meio da perspectiva da ação comunicativa, Marques (1997, p. 60) chama atenção para a interlocução de saberes. Mostra o autor que a educação pautada por essa perspectiva cumpre um diálogo de saberes, não uma simples troca de informações, mas uma busca do entendimento compartilhado entre todos os que participam da mesma comunidade-discursiva, argumentativa.

Na ação comunicativa a interlocução dos saberes será realizada não apenas de maneira superficial ou fragmentada, mas os saberes de cada um e de todos assumirão reconstruções, resultando em novos saberes.

A sociedade, permeada pela ação comunicativa, configura-se como uma teia de relações cada vez mais numerosa, porém ligada, a partir do mundo. Tais relações aparecem sob a forma de expressões imediatas (atos de fala, atividades múltiplas); sob a forma de sedimentações dessas expressões imediatas (documentos, objetos de cultura material, obras de arte, técnicas); e sob a forma de configurações de maior complexidade (as instituições, os sistemas sociais, as estruturas de personalidade).

Para que ocorra a ação comunicativa, é necessário haver igualdade de condições entre os homens e os interesses técnicos do conhecimento. Os interesses técnicos não podem se desvincular dos interesses práticos.             Marques aponta para o diálogo como fundamento de toda a situação possível de discurso. Na ação comunicativa, o diálogo se apresenta como entendimento mútuo da linguagem: subjetividade e intersubjetividade, levando os sujeitos à fundamentação de consensos. Mediante esse significado, utilizamos o conceito de diálogo, presente na ação comunicativa. Marques apresenta uma preocupação com a (re)construção crítica da educação na modernidade.

O diálogo é, para Marques (1993, p. 94), da mesma forma que para Habermas, uma construção daquilo que ainda não somos, mas que podemos e devemos ser numa perspectiva de emancipação.

A educação, orientada na linha do diálogo, alarga o horizonte cultural e as relações humanas nos contextos nos quais ocorre e nas experiências que desenvolve. Então, pessoas e grupos com vivências diferentes confrontam-se no “diálogo aventuroso da aprendizagem coletiva”, ensinam e aprendem (MARQUES, 1993, p. 108).

Nas situações ideais para ocorrer a ação comunicativa, Marques pressupõe que deve haver uma interlocução entre os sujeitos e objetos de estudo: a possibilidade de intervenção, de perguntar, de responder, de problematizar, de interpretar, de opinar, de ouvir, de se opor e decidir.

A linguagem é fundamental para haver a ação comunicativa. Segundo o autor, a linguagem deve cumprir três pretensões:

a)      a da verdade em relação aos fatos que aparecem nas disciplinas e ao mundo, com seus pressupostos existentes;

b)      a veracidade, sinceridade, em relação às intenções e maneiras do educador expressar-se com os educandos;

c)      a retidão moral, referente à transparência das intenções nas quais os conteúdos curriculares e temas são trabalhados.

Marques (1993, p. 79) recorre a McCarthy ao tratar esta temática e o cita:

 

As pretensões de verdade tematizam-se no discurso teórico; as pretensões de correção e veracidade tematiza-as o discurso prático. Em qualquer dos casos, “há de haver concretamente liberdade não só para iniciar uma discussão crítica, para buscar uma justificação discursiva de pretensões problemáticas e para avaliar diversos argumentos e explicações, mas também para pôr em questão e, se necessário, modificar o marco de referência conceitual inicialmente aceito”.

Por valorizar a cultura dos sujeitos, nos seus diferentes saberes, a ação comunicativa favorece o entendimento entre os mesmos e proporciona a compreensão dos objetos de estudo. Torna o sujeito capaz da linguagem e da ação para participar dos processos de entendimento do mundo e de si mesmo. Produz reflexão e argumentação discursiva.

A ação comunicativa proporciona o processo de autoconstituição da vida humana entre os sujeitos que dela participam. Ao mesmo tempo, os impulsiona nos limites do equilíbrio do mundo e, assim, os sujeitos buscam entender-se entre si sobre suas objetivações no mundo, em entendimento provisório e aberto a intervenções. Permite uma visão integrada do conhecimento e dos conteúdos curriculares, relacionando-os articuladamente em uma dimensão complexa.

A ação comunicativa em Marques pretende (re)construir o conhecimento humano no sentido da autoconsciência individual, centrado na linguagem, mediatizando os sujeitos nas relações cotidianas. Nesse processo comunicativo, a racionalidade é conduzida à argumentação e à busca de consensos. No conceito de racionalidade estão presentes as proposições que foram validadas nos processos argumentativos, quando os consensos foram alcançados sem violências, ou corrupções externas e internas (MARQUES, 1993, p. 72).

Para Marques, a escola e/ou ambiente educativo, mais do que por sua estrutura institucionalizada, determina-se, em seus aspectos criadores próprios, pelo entendimento compartilhado e atuação solidária de seus instituintes internos, sujeitos coletivos organizados: os educadores e os educandos. Toda a dinâmica da ação educativa escolar deriva do projeto ou proposta político-pedagógica que o anima e informa, impulsiona, organiza e conduz. Pode-se validar a proposta pedagógica não apenas pelo seu conteúdo, mas pela forma consensual em que se constrói e expressa. Esse consenso na proposta pedagógica, argumentado pelos sujeitos que participam da ação comunicativa, resulta num processo de elucidação discursiva à base dos melhores argumentos e o mais próximo possível das condições ideais de fala[9].

Na ação comunicativa, os educandos produzem, juntamente com o professor e em entendimento comum, os conceitos com que irão operar para entenderem as relações com que lidam. Para Marques, a ação comunicativa pode realizar uma integração social, criar solidariedade, socializar e contribuir na formação de identidades pessoais.

A EJA, se orientada pela perspectiva da ação comunicativa, poderá atribuir ao educando papel ativo de aprendizagem coletiva e da potenciação do desenvolvimento. Essa possibilidade assegura a reflexão, a ação e a compreensão do sujeito ao se deparar com a diversidade cultural, a sociedade, o convívio em grupos, e o auxilia no desenvolvimento do respeito e da afirmação de identidades pessoais.

Assim sendo, poderá promover, então, o alargamento do horizonte intelectual, relacional e expressivo, na dinâmica das experiências vividas pelos educandos e educadores e na totalidade das aprendizagens. Uma EJA, fundamentada na ação comunicativa, permite que pessoas e grupos com experiências diversificadas confrontem-se em um diálogo aventuroso, no qual cada um, ao seu modo, dará testemunho das múltiplas possibilidades humanas.

Esta perspectiva da ação comunicativa de Marques, se trabalhada na EJA, poderá dotar, também, processos educativos de capacidade para a construção de comunidades escolares, inclusive virtuais, considerando que o futuro aponta para tecnologias como algo em expansão.

Por englobar os sujeitos que dialogam numa relação ativa de se entenderem entre si e sobre algo, a ação comunicativa poderá oportunizar processos pedagógicos que favoreçam a interação social dos educandos dialogando entre si ativamente e com os educadores, na busca do entendimento sobre algo que está em debate ou surge no ambiente de aprendizagem.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2 A INTERTRANSDISCIPLINARIDADE COMO DESAFIO NA CONSTRUÇÃO DE CURRÍCULOS PARA A EJA

 

 

Neste Capítulo recorremos aos conceitos de multidisciplinaridade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade, procurando identificar onde e como tais conceitos se fazem presentes nos pensamentos de Freire e Marques para, mais tarde, no Capítulo quatro, trazer tais conceitos para a discussão em um programa de formação de professores para “uma” EJA com viés libertador[10] e progressista[11].

Não se propõe um debate conceitual dos termos, mas a explicitação de como os mesmos se apresentam nas obras de Freire e Marques nas dimensões ética, epistemológica e metodológica. Recorremos também a outros autores que estudaram os conceitos de interdisciplinaridade e transdisciplinaridade para uma maior compreensão desses desafios que, juntamente com o diálogo, se apresentam historicamente para a EJA.

As produções teóricas, metodológicas e práticas de Freire, sempre focadas nas relações dialógicas entre os sujeitos e o conhecimento, possibilitam uma análise dos processos de ensino e de aprendizagem que podem ser empregados na EJA.

Por sua vez, a obra de Marques dá elementos, a partir do paradigma da ação comunicativa, para a compreensão dos processos da EJA quanto à relação entre as disciplinas curriculares e os diversos saberes/conhecimentos que circulam nos ambientes educativos, de forma a questionar até que ponto os processos educativos dão espaço a uma comunicação ampla, superando a lógica que os fragmenta e desconecta uns dos outros.

Buscamos, então, neste Capítulo mostrar, que há possibilidade de interligar as disciplinas presentes no currículo de forma a romper com a fragmentação que as separa, e que faz educandos e educadores perderem o sentido de totalidade na relação com o mundo. Essa busca, em práticas de EJA, pode levar à interdisciplinaridade e à transdisciplinaridade, especialmente se associadas ao diálogo.

 

2.1 Multidisciplinaridade    

 

                                                       

A multidisciplinaridade, em processos educativos e investigativos, pode ser entendida como uma forma de abordar um objeto do conhecimento por meio de um conjunto de disciplinas trabalhadas concomitantemente. Não há, nesta abordagem, a preocupação em “fazer aparecer” as relações que possam existir entre as disciplinas e, pode-se dizer, com o auxílio da teoria sistêmica, que estas se movimentam em um sistema de um só grau hierárquico e de objetivos únicos, sem cooperação alguma. É convivência. A multidisciplinaridade pertence à estrutura tradicional de currículo nas escolas, o qual se encontra fragmentado em várias disciplinas (MENEZES, 2002).

A educação, mediante a multidisciplinaridade, recorre a informações de vários conteúdos curriculares para estudar determinado objeto, sem a preocupação de interligar os conhecimentos disciplinares entre si. De tal modo, cada disciplina contribui com informações próprias do seu campo de conhecimento, sem considerar que existe uma integração entre elas. Essa forma de relacionamento entre as disciplinas é considerada pouco eficaz em processos de ensino e aprendizagem, uma vez que não incentiva uma relação entre os vários conhecimentos, nem desafia o diálogo entre os sujeitos neles envolvidos.

A multidisciplinaridade é importante, contudo, para acabar com um ensino extremamente especializado, concentrado na abordagem de uma disciplina e/ou temática de cada vez. Na multidisciplinaridade encontra-se a ideia de que o conhecimento pode ser dividido em partes (as disciplinas), nas quais cada uma concentra um tipo de saber específico. Elege um objeto determinado de estudo e reconhece métodos próprios para aprendê-lo.

A multidisciplinaridade propõe que várias disciplinas podem ser reunidas; no entanto, essa reunião não significa que elas partilhem qualquer tipo de relação para aprender esse objeto. Isto é, na escola os alunos podem estudar a Itália como país territorialmente situado, o tipo de arquitetura presente neste território, a organização administrativa e a relação de poder predominante, sem que as disciplinas tenham um planejamento conjunto e que as estratégias metodológicas propiciem conexões entre os temas abordados. Em resumo, a convergência entre as disciplinas não é significativa (não provoca a construção de novos significados) na aprendizagem.

Weil et al. (1993, p. 15) tratam da crise do conhecimento em decorrência da fragmentação, e narram que ela começa por uma ilusão que separa o sujeito e o objeto. Antes dessa ilusão, não havia uma separação entre o conhecimento, o conhecedor e o conhecido, ou seja, entre conhecimento, sujeito e objeto.

No entendimento de Weil et al. (1993), o paradigma newtoniano-cartesiano[12] leva a uma visão mecanicista do mundo e ao predomínio do racionalismo científico. O conhecimento se fragmentou em disciplinas cada vez mais numerosas, levando a ciência a enfrentar a fragmentação pela construção multidisciplinar e pluridisciplinar.

Essa abordagem multidisciplinar não chega a romper com a separação entre o conhecimento, conhecedor (sujeito) e conhecido (objeto) e propicia uma disjunção entre o pensamento e a ação, separando o conhecimento curricular da realidade dos educandos.

Nessa perspectiva multidisciplinar, o número de disciplinas aumenta de forma tão grande que a ação do sujeito sobre o objeto leva à perda do sentido da totalidade deste. Várias disciplinas estão presentes em um mesmo nível de ação. Para que haja qualquer tipo de integração tem de haver um trabalho em equipe, em que cada membro se responsabiliza por aportar conhecimento peculiar. Quando há esses esforços e passam a se consolidar encontros e diálogos, pode surgir a interdisciplinaridade.                     

Na obra de Marques (1996b, p. 83), a multidisciplinaridade é posta sob crítica, uma vez que não integra os saberes diversos, o que resulta em uma justaposição ou na confluência conflitiva deles. Em uma prática educativa multidisciplinar, há uma sobreposição dos conhecimentos sem uma ligação significativa entre os mesmos e a realidade cotidiana.

Na linha do pensamento de Freire, é difícil acreditar que existam educadores que pensem que suas aulas estão desligadas do cotidiano de seus alunos e que acreditem que o conteúdo é a única forma de mediação entre si mesmo e os educandos. Assim, também é possível afirmar que a multidisciplinaridade não condiz com esta abordagem e, portanto, não condiz com uma EJA orientada por perspectiva libertadora e progressista.

Na multidisciplinaridade recorremos, então, a informações de várias áreas do conhecimento para estudar um determinado objeto, sem a preocupação de interligar as disciplinas entre si, ou seja, sem interação entre os conhecimentos. Os conhecimentos estão praticamente todos no mesmo grau hierárquico, sem conexão entre os mesmos e sem a preocupação de uma coordenação que provoque o diálogo.

 

 

2.2 Interdisciplinaridade

 

 

Iniciativas na direção de estabelecer relações entre as ciências e/ou campos de saber, é que dariam origem à chamada interdisciplinaridade. Esta forma de abordagem do objeto de estudos, esta tentativa de integração de saberes na investigação no ensino-aprendizagem e na ação, está em constante (re)construção em atividades no âmbito da educação.

Na década de 60 do século 20, inauguram-se estudos sobre a interdisciplinaridade. Teólogos e fenomenólogos buscam um sentido mais humano para a educação com base em uma antropologia filosófica. A interdisciplinaridade provoca questionamentos quanto às diferenças de ordem e níveis em integração e interação, as diferentes modalidades de disciplinas científicas e escolares no currículo (FAZENDA, 2006, p. 6-7). A interdisciplinari-dade é constituída como uma

 

resposta a uma demanda da sociedade, em que o número de especialistas para resolver seus problemas de ordem social, política, econômica etc. é ilimitado, e que estes nada mais possuem do que um conhecimento cada vez mais extenso relativo a um domínio cada vez mais restrito. (FAZENDA, 2006, p. 42-43).

 

As fragmentações do conhecimento limitam a possibilidade de relações desses com a realidade. Por isso, especialistas, movidos pelo reconhecimento de seus limites de saber, vão acolher as contribuições de outras disciplinas. Dessa forma, uma ciência complementa a outra e a separação entre elas é substituída pela exigência de compreensão da realidade, pelas ciências em convergência, configurando um bloco para apreender os modos de expressão dos humanos no seu mundo.

Hilton Japiassú (1976, p. 74-75), estudioso da interdisciplinaridade no Brasil, trata a abordagem interdisciplinar como negação das fronteiras disciplinares:

 

[...] podemos retomar essa distinção ao fixarmos as exigências do conhecimento interdisciplinar para além do simples monólogo de especialistas ou do “diálogo paralelo” entre dois dentre eles, pertencendo a disciplinas vizinhas. Ora, o espaço interdisciplinar, quer dizer, seu verdadeiro horizonte epistemológico, não pode ser outro senão o campo unitário do conhecimento. Jamais esse espaço poderá ser constituído pela simples adição de todas as especialidades nem tampouco por uma síntese de ordem filosófica dos saberes especializados. O fundamento do espaço interdisciplinar deverá ser procurado na negação e na superação das fronteiras disciplinares.

 

Segundo Japiassú (1976), a interdisciplinaridade exige uma reflexão profunda e inovadora sobre o conhecimento, que demonstra a insatisfação com o saber fragmentado.  A interdisciplinaridade propõe um avanço em relação ao ensino tradicional, com base na reflexão crítica sobre a própria estrutura do conhecimento, na intenção de superar o “isolamento” entre as disciplinas.

Para Freire, os sujeitos envolvidos na educação ao se empenharem em conhecer um objeto, a relação entre eles (educador e educando) e a relação entre as disciplinas, se faz dialógica. Entre esses dois sujeitos há uma realidade e:

 

Só no verdadeiro diálogo, no autêntico encontro, há a real interdisciplinaridade, ou melhor, educando e educador são sujeitos de uma mesma situação e a eles em conjunto caberá a decifração do mundo. [...] a real interdisciplinaridade se preocuparia não com a verdade de cada disciplina, mas sim com a verdade do homem enquanto ser do mundo. Se assim não for, teremos uma multidisciplinaridade. (FREIRE apud FAZENDA, 2006, p. 39).

 

Em uma equipe interdisciplinar, há maior propensão à criticidade, pois nenhum tema do conhecimento fica restrito a um campo específico delimitado do saber. É na opinião crítica do outro que me reafirmo, pois a linguagem é de todos que estão inseridos no processo educativo interdisciplinar. Mesmo enfrentando conflitos em razão da diversidade presente, as relações interdisciplinares convidam ao diálogo.

Freire, em sua postura teórica, vê as diferenças de forma cada vez mais complexa; supera a lógica da dominação opressora como sendo apenas uma questão de classes sociais, como esclarece Streck (2008, p. 13):

 

Para ele a lógica da dominação representa uma combinação de práticas materiais, ideológicas e históricas que sempre incorporam contradições e estão sempre sendo disputadas dentro de relações assimétricas de poder que estão presentes em todos os segmentos sociais, também entre os oprimidos onde eles mesmos criam pressões e possibilidades. Nesta visão os próprios oprimidos necessitam lutar no interesse de sua própria libertação da opressão que eles mesmos podem estar operando, subjetiva e objetivamente. Para tanto, Paulo Freire indica formas de conhecimento, habilidades e relações sociais que promovam as condições para a emancipação social e, portanto, também para a auto-emancipação.

Para isso, Freire aborda o comprometimento necessário dos educadores e intelectuais como partes de um projeto social para humanizar a realidade, para que todos possam ser incluídos. A escola, nesse sentido, pode ser um espaço para uma ação social que estabeleça práticas educativas que estejam conectadas com a realidade e reconheçam os saberes culturais dos sujeitos envolvidos, educandos e educadores.

Nos últimos escritos de Paulo Freire, contidos no livro Pedagogia da Autonomia (1997b), segundo Streck (2008, p. 14), está a síntese da proposta dos “saberes necessários” para compor um novo modelo de educação e surpreende afirmando que estes estão ligados diretamente à prática esperançosa da possibilidade e do engajamento. “Os saberes são considerados como uma nova forma de discurso surgido de vários locais específicos”. Estes saberes estão entrelaçados com a prática cotidiana, e a ultrapassam ao fundamentar princípios como a criticidade, pesquisa, respeito aos saberes dos educandos e reflexão crítica sobre a prática educativa. Estes saberes se necessitam porque se complementam.

Ao longo de sua obra, Freire apresenta uma proposta interdisciplinar para a alfabetiza-ção de adultos, na qual os temas geradores assumem uma dimensão estratégica para construir relações curriculares e ação dos sujeitos sobre o mundo. Estes temas geradores abrem espaço para uma reflexão crítica ao currículo, valorizando as diferenças regionais, culturais e antropológicas dos educadores e educandos envolvidos no processo educativo de EJA.

 

Os temas geradores constituem um excelente paradigma interdisciplinar, para a pesquisa, para a integração dos diferentes campos do saber científico e para a organização dos currículos escolares. A interdisciplinaridade é estabelecida, por Freire, como requisito para uma visão da realidade nas perspectivas da unidade, da globalidade e da totalidade. Ele fala em diferentes critérios de unidade, totalidade e a espacialidade [...]. Os temas geradores, segundo Freire, podem ser localizados em círculos concêntricos, que partem do mais geral ao particular (Pedagogia do Oprimido, p. 94). Tanto na dimensão histórica (tempo) quanto na geográfica (espaço), os temas surgem da concretude de situações-limite, ligados a aspectos específicos da realidade (sociais, econômicos, psicológicos, culturais, políticos, etc.) cuja compreensão não pode ser dada apenas através do conhecimento restrito da subárea específica. (STRECK, 2008, p. 71).

 

Essa metodologia freireana dos temas geradores tenta superar a fragmentação dos saberes, o que foi trabalhado com muita ênfase em sua gestão como secretário da Educação no Estado de São Paulo[13]. Propõe um trabalho em equipe, e descreve tais práticas no livro A Educação na Cidade (1991).

João Zanetic (2007), professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo, o qual participou do projeto interdisciplinar na gestão freireana na época em que Paulo Freire foi secretário da Educação Municipal, explica que, para realizar a tarefa de construir projetos interdisciplinares, via tema gerador, Freire sugeriu a escolha das palavras geradoras, como no processo de alfabetização de adultos, e a seleção de elementos culturais representados pelas diferentes áreas do conhecimento. Para isso, houve várias etapas para a construção curricular com base na interdisciplinaridade, e por vários momentos pedagógicos para a construção da organização didática a ser trabalhada com os alunos nas unidades de ensino. Esse processo envolveu professores das diferentes áreas do conhecimento e assessoria, composta por docentes universitários, além dos alunos, demais trabalhadores em educação e representantes de pais de alunos.

De forma coerente com o que propunha em seus livros em sua gestão como secretário, Freire orienta sua equipe a realizar um diagnóstico inicial sobre as condições da localidade em que se encontrava a escola. Provocou análises e escolhas de situações contraditórias, que eram codificadas em formas de desenhos, fotografias ou depoimentos orais para serem empregados em um círculo de investigação temática - envolvendo educadores, educandos, assessores e conselhos de escola - que iniciava um processo de decodificação das situações escolhidas para discussão. Esse era um momento de problematização, quando eram identificados os “temas geradores”. Essa etapa exercia um papel fundamental de formação continuada professores em serviço. Após essa etapa, era realizado um estudo interdisciplinar e ordenado de todo o material coletado visando à redução temática para a construção do programa de ensino. Havia produção e discussão sobre o material didático utilizado com a equipe de professores e assessores universitários. Assim sendo, o professor deixava de ser um mero reprodutor de currículos tradicionais.

Zanetic (2007) cita ainda, que em sala de aula as práticas interdisciplinares freireanas eram realizadas sistematicamente por meio de três momentos:

a)      Estudo da realidade: discussão crítica de uma situação da realidade, visando a sua compreensão a partir da visão que o educando tem sobre a mesma.

b)      Organização do conhecimento: estudo do conhecimento universal das diferentes áreas do conhecimento, buscando conteúdos específicos e comparando as diferentes visões.

c)      Aplicação do conhecimento: neste momento, o conteúdo apreendido é utilizado para (re)interpretar a situação apresentada no primeiro momento.

 

O diálogo interdisciplinar também está presente em torno dos aspectos quando Freire discute a opressão e libertação na Pedagogia do Oprimido:

 

Freire se preocupou em mostrar, numa perspectiva interdisciplinar, a complexidade do problema da opressão, e oferece pistas para aquilo que parece apresentar-se já como um convite do próprio Freire: que as estruturas da opressão sejam analisadas em todos os campos do conhecimento e combatidas sob as formas de ação. (STRECK, 2008, p. 73).

 

A opressão para Freire é um fenômeno real sofrido pelas grandes maiorias excluídas das condições humanas de vida, alimentação, saúde, diálogo, alegria. Para haver libertação de todas as formas opressivas é preciso um esforço global, e que educadores e intelectuais contemporâneos se associem ao processo de libertação, desde seu campo de atuação, promovendo um diálogo profundo e interdisciplinar.

A educação libertadora e crítica de Freire rompe com a polarização entre educador e educando, predominante na educação bancária, propondo em seu lugar o processo dialógico entre os sujeitos envolvidos no processo educativo. Nessa proposta de educação, predomina o diálogo que envolve uma (re)construção dos saberes que tratam da relação dos sujeitos com o mundo, problematizando o conteúdo que os mediatiza. O estilo de aceitar como neutro o conteúdo educacional, mesmo numa área do conhecimento como a Matemática, tem que ser (re)pensado. Tanto a forma de abordar um conteúdo, quanto o próprio conteúdo curricular, necessitam estar em questão na construção de uma educação libertadora

Marques identifica o diálogo como desafio a se construir na sociedade atual, na ação comunicativa, contribuindo para o desenvolvimento da criticidade na sociedade. A fragmentação das disciplinas interrompe o diálogo entre as áreas do conhecimento. Quando essa ocorre, a educação é disputada pela intervenção de várias ciências e passa a se situar como ponto de interseção crescente (MARQUES, 1996b, p. 82). Busca a construção de perspectivas teóricas, coerente com um paradigma educacional neomoderno, no qual o diálogo entre os sujeitos e a ação comunicativa entre saberes e disciplinas se consolida em práticas, renovando as metodologias e possibilitando aprendizagens teóricas.

Este autor critica a situação educacional em seu contexto atual, na qual temos presentes vários conhecimentos especializados sendo utilizados por um educador não especializado. Para recuperar essa realidade, cita o surgimento da interdisciplinaridade e da pluridisciplinaridade, as quais considera “medidas paliativas” para a recuperação de uma unidade teórica para tratar as questões da educação. Para Marques (1983), a interdisciplinaridade é vaga em suas propostas que enfrentam empecilhos (institucionais, administrativos, psicossociais, no enfrentamento da vontade do poder contrário à confrontação dos saberes e favorável ao controle da opinião pública) (p. 83). A interdisciplinaridade não consegue romper com a lógica fragmentada, afirma o autor.

Para que haja essa ruptura, é necessário que a sala de aula seja compreendida como lugar de encontro para as relações educativas, e como tempo de trabalho de uma turma de educandos e educadores que efetivem uma unidade em que se supere a fragmentação das disciplinas e das responsabilidades em práticas orientadas por e para linhas e eixos temáticos e conceituais interdisciplinares, não apenas uma justaposição de disciplinas enclausuradas em si mesmas, mas de maneira que, em cada uma, se impliquem os demais saberes (MARQUES, 1993, p. 111).

Para as práticas de sala de aula, Marques (2006, p. 152-153) busca na realidade cotidiana uma base que permite a comunicação entre educandos e educadores, para que esses se entendam, compreendam o mundo em que vivem e realizem reflexões críticas da sociedade, intercalando saberes múltiplos.

Este autor sugere aos educadores fazer a leitura do mundo da vida com os educandos, para realizarem, assim, uma interpretação das informações recebidas na sociedade, família e outros grupos, de forma abrangente a várias instâncias do saber:

 

Dessa forma, por exemplo, os espaços e tempos da família e da escola adquirem sentido nas operações e na linguagem em que se experimentam e dimensionam como duração e como extensão, como as atividades do contar e do medir, a organização de linhas de tempo, a reconstituição da história da família, da escola, da vida do aluno, atividades do contar e do medir, a organização de linhas de tempo, atividades essas em que se implicam não apenas a linguagem das ciências sociais, também as das matemáticas, das ciências biológicas e ciências naturais, as do movimento corporal, as das artes, as da fala e da escrita. (MARQUES, 2006, p. 161).

 

Ele sempre reforça a importância da linguagem, da comunicação, e critica a lógica fragmentada de uma área do conhecimento desconectada de outra. Para essa superação, enfatiza a intercomplementaridade e interlocução dos saberes nas práticas e teorias pedagógicas como desafio para romper com a exterioridade superficial com que, muitas vezes, o conhecimento é trabalhado.

Como estratégia metodológica, a interlocução dos saberes, que faz parte do paradigma da ação comunicativa, significa que a educação se cumpre num diálogo de saberes; não em simples troca de informações, mas na busca do entendimento compartilhado entre todos os que participam da mesma comunidade. A interlocução dos saberes reconstrói dinâmicas por meio das aprendizagens no mundo das tradições culturais que se ampliam nos espaços mediatizados pelos educadores, que buscam essa opção teórica dialógica entre os saberes. Para Marques (1997), essa nova proposta teórico-prática, dentro do paradigma da ação comunicativa, deve superar a interdisciplinaridade.

 

 

2.3 Transdisciplinaridade

 

 

A transdisciplinaridade é definida na contemporaneidade como uma abordagem de objetos que tem como objetivo principal a unidade do conhecimento. Articula uma nova compreensão da realidade com/entre conhecimentos que se comunicam.

Esse termo foi criado por Piaget, que no 1° seminário Internacional sobre pluridisciplinaridade e interdisciplinaridade, realizado na Universidade de Nice, também conhecido como Seminário de Nice, em 1970, divulgou-o pela primeira vez, dando então início ao estudo sobre o mesmo, solicitamos aos participantes que refletissem sobre o assunto. Segundo Piaget, o termo “procura uma interação máxima entre as disciplinas porém respeitando suas individualidades, onde cada uma colabora para um saber comum, o mais completo possível, sem transformá-las em uma única disciplina”.

É na Carta da transdisciplinaridade, produzida pela Unesco no 1° Congresso Mundial de Transdisciplinaridade em 1994, realizado em Arrábida, Portugal, que se oficializou a definição do conceito transdisciplinar:

 

         Artigo 3: [...] a transdisciplinaridade não procura o domínio sobre várias outras disciplinas, mas a abertura de todas elas àquilo que as atravessa e as ultrapassa [...].

         Artigo 7: A transdisciplinaridade não constitui nem uma nova religião, nem uma nova filosofia, nem uma nova metafísica, nem uma ciência das ciências.

 

No âmbito acadêmico, já no século 20, com o intuito de unir o mundo “não universitário” ao universitário, cuja separação se dá primordialmente pela superespecialização profissional, com grande número de disciplinas que não acompanham todo o desenvolvimento, principalmente na área tecnológica, temos um aprofundamento no uso deste conceito, visando formar profissionais cada vez mais compatíveis com as exigências do mercado de trabalho do futuro.

 

Assim tão complexo quanto os problemas que tenta solucionar, tem-se a transdisciplinaridade, que por ser tão sutil, ser a linha tênue que une e serve de limite entre o comprometimento e o individualismo de cada disciplina, que não possui uma definição exata, e ao mesmo tempo é um dos mais necessários conceitos quando tratamos de formação e educação. (FREITAS; MORIN; NICOLESCU, 1994, p.   ).

 

Nessa perspectiva transdisciplinar, as disciplinas vão além da colaboração. Colaboram entre si, mas há um pensamento organizador que ultrapassa as próprias disciplinas. Difere da interdisciplinaridade, como já se explicitou, que busca unir os conhecimentos e as disciplinas para fazer e “conversar” sobre os questionamentos e expectativas que se vislumbram na educação. Em uma relação de transdisciplinaridade, as disciplinas estão mais interligadas, agregadas, conectadas entre si. Para existir a transdisciplinaridade, é necessário haver um pensamento organizador, complexo e não uma disciplina aglutinadora, como na interdiscipli-naridade. O pensamento complexo é entendido por nós como uma totalidade, de modo que não podemos compreender qualquer de suas partes se as separarmos do seu conjunto.

A transdisciplinaridade busca organizar todo o conhecimento para, da forma mais ampla possível, compreendê-lo enquanto totalidade, sem fragmentações e desconexões de uma parte ou disciplina.

Para trabalhar esse conceito na educação, não existem métodos específicos, ou uma receita pronta que promova a realização de tais métodos e perspectivas educativas. Um grande desafio para essa realização é abolir a distância entre as ciências.

A transdisciplinaridade tem como objetivo na educação aceitar e abordar a realidade, considerando sua história e suas possibilidades. Para isso, a unidade de conhecimentos permite coerência entre as disciplinas.

Para Santos (2006), a transdisciplinaridade “é a busca do sentido da vida através de relações entre os diversos saberes (ciências exatas, humanas e artes) numa democracia cognitiva. Nenhum saber é mais importante que outro. Todos são igualmente importantes”. Para ele, a educação moderna não se ocupa do “alargamento” integral dos sujeitos. Prioriza a dimensão racional tratando de dotá-los do necessário para se integrar e dar continuidade ao sistema. Ao dicotomizar o sujeito do objeto, o ser do saber, o conhecedor do conhecimento, analisa os elementos da subjetividade como a emoção, o sentimento, a intuição e a sensibili-dade como sendo dimensões inferiores na constituição desse sujeito. Ainda complementa:

           

A transdisciplinaridade é uma nova abordagem científica e cultural, uma nova forma de ver e entender a natureza, a vida e a humanidade. Ela busca a unidade do conhecimento para encontrar um sentido para a existência do Universo, da vida e da espécie humana. Se a Ciência Moderna significou uma mudança radical no MODO DE PENSAR dos homens medievais, a transdisciplinaridade, hoje, sugere a superação da mentalidade fragmentária, incentivando conexões e criando uma visão contextualizada do conhecimento, da vida e do mundo.

[...] A transdisciplinaridade reivindica a centralidade da vida nas discussões planetárias, propondo mudança no sistema de referência e se apóia em três exigências:

1. considerar vários níveis de realidade;

2. trabalhar com a lógica do Terceiro Termo Incluído;[14]

3. abranger a visão da complexidade dos fenômenos (SANTOS, 2006).

 

            A transdisciplinaridade representa uma tentativa de rompimento da separação entre as teorias e práticas do conhecimento que envolve a educação como um todo. Visa a interagir, vai além das pesquisas especializadas, atua em um estágio do saber, no qual não há fronteiras estáveis entre as disciplinas.

Weil et al. (1993, p. 30-31) procuraram explicar o porquê da transdisciplinaridade. Explicam essa histórica contribuição para a ciência e relatam como Erich Jantesch abordou a explicação desse tema:

 

Para isso, partiu, em primeiro lugar, da fragmentação do saber em setores distintos fechados, que são, segundo ele, características de um enfoque particular real e de um sistema específico de relações dos seres humanos com seu entorno. O autor contesta essa visão parcial que corresponde a uma visão racional de um mundo estável e estático. Tal visão foi imposta como última verdade da ciência, e a ciência tendeu a abafar e rechaçar outra espécie de enfoque, devido ao sucesso tecnológico e econômico que reforçou a visão segundo a qual ciência seria uma abordagem mais verdadeira que aquela desenvolvida por outras culturas que enfatizam a inter-relação de tudo com tudo.  

 

Nesse sentido, a realidade é mais complexa e requer abordagens complexas para ser conhecida. A interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade, como vêm sendo tratadas por muitos autores, são dois termos que, por vezes. se confundem entre si. Segundo Weil et al. (1993, p. 31):

 

A transdisciplinaridade aparece como consequência natural da síntese dialética provocada pela interdisciplinaridade, quando esta for realizada. Na transdisciplinaridade há um novo tipo de conhecimento científico, onde estão presentes o sentido da vida e da alegria.

 

Edgar Morin (1998) lamenta, em seu livro Ciência com Consciência, as fragmentações que ocorrem no conhecimento científico e afirma ainda que a interdisciplinaridade não consegue controlar suas disciplinas, e que nela as fronteiras entre si se confirmam. Então, para Morin, é preciso ir além, e apresenta a transdisciplinaridade também como solução para a fragmentação do conhecimento científico.

A obra de Paulo Freire explicita um diálogo desafiador interdisciplinar e transdisciplinar, que salienta uma necessidade humana de ler o mundo, analisar a realidade e transformá-la em seus aspectos contraditórios. Esse é integrador.

Segundo Streck (2008, p. 86), Freire faz uma reflexão em uma entrevista sobre o conceito de totalidade aplicando-o à realidade. Tal conceito é explicado por Freire como apreensão humana, que primeiro analisa em partes para seguir a exigência de totalizar e retotalizar, para que ocorra a compreensão plena da realidade. Este é um exercício teórico-prático. Freire, nessa entrevista, afirma que na sua interpretação a transdisciplinaridade passa por uma análise que cinde a realidade. A transdisciplinaridade, no entanto, se conclui quando as diferentes disciplinas retotalizam o que foi cindido.

Nessa mesma entrevista, realizada em um Seminário Interdisciplinar que, em 1994, Freire (2008, p. 87) afirma:

 

O Real é, enquanto Real, uma totalidade transdisciplinar. E só é apreendido em retotalizações. A inter (ou trans) disciplinaridade é demanda da Natureza e da Realidade do Mundo. É como se ela dissesse: “Vocês, Humanos, podem conhecer-me mas, pra ajudá-los, eu vou logo dizendo que só me conhecerão com a condição de correlacionarem dialogicamente as múltiplas partes ou tendências que são necessárias a vocês”. A transdisciplinaridade, então, foi uma descoberta do ser Humano, descoberta necessária. Necessária para quê? Para lidar (retotalizando) com a necessidade da análise, que particulariza aspectos do Real.

 

Conceitos interdisciplinares e práticas que visassem a transdisciplinaridade curricular, foram bases do projeto político-pedagógico adotado por Freire em sua gestão como secretário da Educação, no município de São Paulo, como já afirmamos. Os temas geradores possuem características interdisciplinares e transdisciplinares.

Além disso, a transdisciplinaridade perpassa as barreiras das escolas, universidades e passa a ser uma ampla exigência na realidade do mundo contemporâneo, rompendo com a fragmentação em que os saberes se encontram. Na perspectiva freireana, somente uma “retotalização através de um processo dialógico interdisciplinar poderá reconstituir a unidade, numa dimensão que transcende o fragmentário, o específico, o parcial, para além das ciências específicas, num nível por isso mesmo, transdisciplinar” (2008, p. 88).

Para Marques (1996a, p. 72-73), a comunidade profissional (re)constrói seus saberes na intersubjetividade da comunicação em seu interior e com a comunidade ampla a que presta serviços. A complexidade das profissões exigem processos comunicativos e compete à educação organizar estes espaços e tempos formais para realizar formação explícita de cada profissão, sem ignorar as dimensões plenas da realidade do mundo, que é complexa. A transdisciplinaridade ser daria neste espaço, onde as disciplinas se intercomplementam em uma rede complexa, já que na sociedade atual que é caracterizada pela divisão do trabalho, há fragmentação do conhecimento e predominam as especializações. Para Marques, a comunicação e a possibilidade consensual entre os sujeitos cumprem as condições da racionalidade para além das reflexões teóricas. Nesse mesmo texto complementa: “Compete, assim, à educação organizar espaços e tempos formais para uma formação proposital, explícita sem ignorar as dimensões plenas da vida humana e do exercício profissional no mundo dos homens [...]”.

Por essas características que fazem parte da sociedade contemporânea, fazem-se necessárias abordagens educativas que possibilitem uma comunicação entre as diferentes áreas do conhecimento, e que superem as dicotomias e outras formas de separar e dividir decorrentes da fragmentação da especialização. A transdisciplinaridade, então, insere-se na proposta neomoderna, na qual a educação se alarga como horizonte cultural e dialogam os sujeitos e saberes.

Nessa proposta neomoderna, a sala de aula é entendida como lugar de encontro entre os educadores e educandos, para que as relações educativas superem a fragmentação das disciplinas e das responsabilidades, em práticas orientadas por eixos temáticos e conceitos interdisciplinares. A sala de aula, assim, vai além de apenas uma justaposição de disciplinas enclausuradas em si mesmas, mas de maneira que, em cada uma, se impliquem as demais regiões do saber (MARQUES, 1993, p. 111). Esses conceitos interdisciplinares e transdisciplinares estão fortemente marcados nas obras de Marques, “Pedagogia: a ciência do educador”, “Educação/Interlocução, aprendizagem, reconstrução de saberes”, “Conhecimento e modernidade em reconstrução” e “Conhecimento e Educação”, e sempre apontam para uma comunicação dialógica, para a articulação dos saberes em estruturas complexas e espaço de organização de uma dinâmica educacional integradora dos conteúdos curriculares, relacionados com a realidade.

A transdisciplinaridade em Marques pensa o cruzamento de especialidades, o trabalho nas interfaces e sobreposições, a superação das fronteiras, a migração do conceito de um campo de saber para outro e a unificação do conhecimento.

Para Marques, a ciência contemporânea aponta para o paradigma da complexidade, em que o “complexo” corresponde a produzir articulações entre domínios disciplinares que são rompidos pelo pensamento isolado e desarticulado da totalidade. Essa percepção de complexidade encontra-se em processos de subjetivação, quando sujeito e objeto estão constituindo-se e se designando em reciprocidade. A complexidade não significa só pensar o incerto e o certo, o lógico e o contraditório, é a inclusão do observador na investigação em uma dinâmica em que ordem e desordem convivem na realidade em diálogo mútuo.

O conhecer é concebido como ação e reflexão, teoria e prática se completando. O conhecimento se apoia na experiência, no trato prático e factual com os objetos que estão conectados.

A linguagem é a operação fundamental, como mediação, tendo a razão comunicativa a incorporar, além do elemento cognitivo e instrumental, os elementos práticos, moral, emancipatório e estético. O sujeito do conhecimento é resultado de um processo de formação tanto da espécie humana quanto dos indivíduos, processo em que a individuação e a socialização são indissolúveis e interdependentes.

A ação comunicativa parte da interlocução de saberes. Os sujeitos apresentam esses saberes ao se relacionarem mutuamente com os outros, buscando, por intermédio da argumentação, um entendimento provisório sobre algo presente nos mundos objetivo, social e subjetivo. Dessa forma, a aprendizagem acontece a partir da (re)construção de saberes partilhados intersubjetivamente, em que há uma relação de reciprocidade entre os sujeitos na construção dos conhecimentos.

 

Interlocução de saberes significa, por outra parte, que a educação se cumpre num diálogo de saberes; não em simples troca de informações, nem em mero assentimento acrítico a proposições alheias, mas na busca do entendimento compartilhado entre todos os que participem da mesma comunidade de vida, de trabalho, de uma comunidade discursiva de argumentação. Interlocução que se faça de saberes não apenas prévios, os saberes de cada um, sobretudo na participação de cada um e de todos na reconstrução de que resultem novos saberes, os saberes de cada específica comunidade em cada nova situação. (MARQUES, 1997, p. 60-61).

 

Freire e Marques contribuem para uma Educação de Jovens e Adultos na perspectiva progressista e libertadora, com seus pensamentos interdisciplinares e transdisciplinares.

            A interdisciplinaridade colabora com a EJA na construção curricular por não se constituir apenas de junção de disciplinas, mas sim uma construção que se dá numa perspectiva contextualizada a partir da pesquisa da realidade. A transdisciplinaridade, por sua vez, visa a ultrapassar um currículo fragmentado, a-histórico, disciplinar, procurando constituir uma visão de totalidade sobre o conhecimento e sua construção. Ambas contribuem para um currículo na EJA que estabeleça o diálogo com as ciências presentes, facilitando o estabelecimento de relações, na perspectiva de formar uma rede conceitual, que se trama à medida que o sujeito aprende os conceitos e a sua relação com a vida, a sua transformação e a consequente intervenção no mundo.

Os conteúdos, sendo trabalhados com o do tema gerador, articulam os campos do saber, tomando como ponto de partida a realidade dos educandos e fazendo buscas teóricas para compreendê-la, identificando problemas, potencialidades e indicando caminhos que possibilitem mudanças.

A totalidade de conhecimento presente na transdisciplinaridade é fundamental, pois o conhecimento, enquanto construção social, é contextualizado e histórico, construído a partir do diálogo e numa perspectiva interdisciplinar e transdisciplinar. Dessa forma, a construção social do conhecimento está diretamente comprometida com a possibilidade da transformação social, referenciada na realidade histórica, em interação com os diferentes saberes e valorização da cultura popular.

 

 


3 APROXIMAÇÃO ENTRE OS PENSAMENTOS DE FREIRE E MARQUES NA EDUCAÇÃO

 

 

A partir do desafio de problematizar o diálogo inter/transdisciplinar na Educação de Jovens e Adultos, faz-se necessário realizar algumas sínteses do que até agora foi apresentado sobre os pensamentos de Freire e Marques, autores que nos auxiliaram na situação empírica acompanhada na pesquisa.

Primeiramente apresentamos o porquê de trazer Freire e Marques para o centro teórico da reflexão da nossa dissertação. A seguir identificamos, no legado dos dois autores, aproximações teóricas e metodológicas, que podem, na EJA, enriquecer a construção curricular, as práticas cotidianas em sala de aula e a construção do conhecimento dos sujeitos envolvidos nesse processo educativo.

Apontamos, então, aproximações nas propostas de Freire e Marques que podem (re)fundamentar o diálogo intertransdisciplinar na EJA de forma coerente com a realidade contemporânea dessa modalidade de ensino. Dentre elas trazemos ao texto aquelas que são condizentes com o foco de reflexão da dissertação: o diálogo como desafio na sociedade atual, o testemunho pessoal do educador e a interdisciplinaridade.

Antes, porém, trazemos alguns elementos referentes ao ponto de partida que desafiou a produção teórica de cada autor.

 

 

3.1 O ponto de partida teórico       

 

 

Ainda que os pontos de partida dos dois autores com quem dialogamos sejam próprios a cada um deles, a trajetória seguida por ambos aproximou-os em alguns aspectos. Neste subitem trataremos disso.

Freire parte da realidade do povo oprimido do Nordeste brasileiro. Situa essa região como uma das mais pobres do Brasil e faz uma leitura crítica, histórica e social da situação desse povo na perspectiva da transformação da opressão.

Apresenta-se como educador. Explicita sua visão de sociedade, de existência humana e de educação. Parte do ponto de que a vida em sociedade tem uma historicidade e as realidades socioculturais são produções humanas, com fundamentação antropológica, ética e política. Por ter essas características, a vida em sociedade desmente toda e qualquer posição determinista, conservadora, como a do discurso neoliberal. Freire sempre preocupou-se com a realidade social dos oprimidos, e dirigiu suas leituras teóricas e filosóficas em busca da compreensão profunda dessa realidade de opressão com que se deparava (ZITKOSKI, 2000, p. 160-168). Vê a educação como uma possibilidade de libertação da opressão, embora nem toda educação seja libertadora.

Marques inicia sua caminhada intelectual como teólogo inspirado nos ideais de vida de São Francisco e desenvolvendo, como educador, um trabalho com os pobres do campo e das periferias urbanas no Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul.

Apresenta-se claramente como intelectual, teórico, que passa por diferentes fases em sua trajetória como escritor, aprimorando sua forma de escrever para facilitar a comunicação com os seus leitores. Ele mesmo se descreve, dirigindo-se a jovens leitores:

 

Tenho a sofrida consciência de que nos é difícil falar a mesma linguagem. Ouvir e falar não depende somente do manejo de certo vocabulário comum. Dependem também das vivências coparticipadas em determinados contextos e das experiências do viver juntos. Apesar dos meus esforços por me expressar em linguagem acessível a vocês mais jovens, sei das minhas limitações a esse respeito. Peço por isso excusas por solicitar a vocês o esforço adicional requerido pela leitura de meu texto. Temos, felizmente, mediador preciso no amigo de todos que é o dicionário ao alcance de nossas mãos. Nos casos de dúvida tenho sistematicamente a ele recorrido. (MARQUES, 1999b, p. 8).

 

Dialoga com o pensamento teórico de Habermas em seus estudos sobre o conhecimento, paradigmas que o envolve, interlocução dos saberes, papel do professor como mediador, e defende, com ousadia, a Pedagogia como ciência do educador.

 

 

3.2 O diálogo como desafio na sociedade atual

 

 

O diálogo como Freire o propõe, leva à construção de sentido para a vida. O autor fala em uma sociedade mais humana, ou seja, a razão de ser/viver está além das relações opressoras praticadas na sociedade contemporânea. O diálogo freireano aponta para a libertação da condição de opressão.

A libertação é vista como um movimento que ocorre dentro do oprimido e é comparada com um parto. O homem que nasce desse parto é um novo homem que busca a superação da condição de opressão, de temer a liberdade (FREIRE, 1997a, p. 35). Possibilita a consciência da opressão, nos oprimidos, o que os faz temer a liberdade. A libertação apresenta ao mundo esse ser humano não mais opressor, não mais oprimido, mas na condição de estar se libertando.

O diálogo tem potencial para mediar a libertação de todos os oprimidos, podendo levá-los a questionar o estado das coisas que os cercam, e se apresentando como um desafio social a transformá-las.

O desafio que Marques identifica ocorre em uma relação dialógica, e também está lançado a reconstruir a sociedade atual, a habilitá-la a um projeto emancipatório por meio da ação comunicativa. Expressa que a racionalidade humana é mais ampla do que a razão moderna, e que pode ser reconstruída mediante um processo de aprendizagem coletiva.

Nesse aspecto, a proposta da ação comunicativa, como mostra e analisa Zitkoski (2000, p. 124) complementa as produções teóricas freireanas quando afirma que:

 

Os sujeitos sociais têm uma capacidade de aprendizagem a partir da qual é possível liberar esse potencial comunicativo hoje atrofiado e construir novas redes de relações interpessoais capazes de construir uma cultura emancipada dos vínculos que atrofiam e oprimem a vida humana em sociedade.

 

Freire e Marques tratam, portanto, criticamente o conceito de diálogo enquanto propostas não só para a emancipação dos sujeitos, mas também para a construção de uma nova racionalidade social. Ambas as teorias, tanto o diálogo em Freire como a ação comunicativa em Marques, vão destacar a importância da livre-comunicação, empregando-a como tática para a humanização do mundo na atualidade. Ambos autores apresentam propostas para a construção de uma racionalidade onde o diálogo é a base de uma visão antropológica que produz a libertação dos oprimidos (para Freire) e superação da atual crise sociocultural mundial, cuja principal causa é o déficit de comunicação (para Marques).

 

 

 

 

 

 

 

 

3.3 O testemunho pessoal do educador

 

 

Para Freire, o testemunho na teoria da ação dialógica é uma das características principais do caráter cultural e pedagógico da revolução[15], como descreve em sua obra denominada Pedagogia do Oprimido (1997a, p. 175), revolução que leva a profundas transformações nas estruturas econômicas, sociais, políticas e familiares nos sujeitos.

O testemunho é constituído de elementos como:

        a coerência entre a palavra e o ato de quem testemunha;

        a radicalização pela qual passam, além de quem testemunha, aqueles a quem o testemunho é dado, à ação;

        a valentia de amar, que não permite a acomodação com as injustiças do mundo e busca sua transformação para a crescente libertação humana;

        a crença nas massas populares, pois é a elas que o testemunho se dá.

O testemunho autêntico para Freire é crítico. Implica a ousadia de correr riscos, inclusive o de nem sempre a liderança, em um processo de mudanças, conviver com a “adesão” das massas populares nas lutas pela libertação da opressão:

 

Um testemunho que, em certo momento e em certas condições, não frutificou, não está impossibilitado de, amanhã, vir a frutificar. É que, na medida em que o testemunho não é um gesto no ar, mas uma ação, um enfrentamento, com o mundo e com os homens, não é estático. É algo dinâmico, que passa a fazer parte da totalidade do contexto da sociedade em que se deu. E, daí em diante, já não para. (FREIRE, 1997a, p. 176).

 

Explica ainda que o testemunho verdadeiro que não apresenta “resultados imediatos” ou “visíveis” não significa que tenha fracassado. Um exemplo disso é o que ocorre com muitos líderes revolucionários cujo testemunho não acabou com suas mortes, escreve Freire. O testemunho permanece. Faz parte da prática educativa. O testemunho está intrinsecamente ligado à união das massas populares como elemento integrador dessa união. Quando ousado, amoroso e estiver integrado ou presente na ação dialógica, potencializa a organização. Implica autoridade na ação dialógica sem ser autoritário.

 

Para Freire (1997b, p. 152-153), o testemunho é necessário também na prática educativa, pois:

 

Como professor não devo poupar oportunidade para testemunhar aos alunos a segurança com que me comporto ao discutir um tema, ao analisar um fato, ao expor minha posição em face de uma decisão governamental. Minha segurança não repousa na falsa suposição de que sei tudo, de que sou o “maior”. Minha segurança se funda na convicção de que sei e de que ignoro algo a que se junta a certeza de que posso saber melhor o que já sei e conhecer o que ainda não sei. Minha segurança se alicerça no saber confirmado pela própria experiência de que, se minha inconclusão, de que sou consciente, atesta, de um lado, minha ignorância, me abre, de outro, o caminho para conhecer. Me sinto seguro porque não há razão para me envergonhar por desconhecer algo. Testemunhar a abertura aos outros, a disponibilidade curiosa à vida, a seus desafios são saberes necessários à prática educativa. Viver a abertura respeitosa aos outros e, de quando em vez, de acordo com o momento, tomar a própria prática de abertura ao outro como objeto da reflexão crítica, deveria fazer parte da aventura docente.

 

Para este autor, a prática educativa tem a obrigação moral de ser um testemunho genuíno de ética (marca da natureza humana e atitude inseparável da prática educativa) e de pureza. O professor não pode estar longe ou fora da prática de respeitar o outro, por si mesmo e nas suas diferenças. Esse testemunho do educador não pode estar ausente na interação educador e educando, pois é parte da formação moral deste.

Em Marques, o testemunho, associado ao diálogo, faz-se presente na proposta neomoderna da educação, em que os sujeitos envolvidos no processo educativo aventuram-se confrontando-se dialogicamente e dando testemunho das múltiplas possibilidades humanas.

 

Na proposta da neomodernidade, a educação assume, assim, papel ativo de aprendizagem coletiva e da potenciação do desenvolvimento cognitivo, prático-moral e expressivo-estético, em que se assegure o domínio das sempre outras situações a enfrentar no mundo das tradições culturais, no espaço social do convívio em grupos e no respeito e afirmação das identidades pessoais. A educação é o alargamento dos horizontes intelectual, relacional e expressivo, na dinâmica das experiências vividas e na totalidade da aprendizagem da humanidade pelos homens. Nela, pessoas e grupos com experiências diversificadas confrontam-se num diálogo aventuroso, em que cada um, a seu modo, dá testemunho das múltiplas possibilidades humanas. (MARQUES, 1993, p. 13).

 

Neste sentido, o testemunho dos sujeitos envolvidos nos processos educativos fundamenta o diálogo vivo dos sujeitos entre si e deles com os objetos. Os homens buscam entenderem-se entre si sobre “suas próprias objetivações no mundo que habitam, em entendimento sempre limitado e provisório, porque sujeito à intervenção de variáveis outras.” (MARQUES, 1993, p. 108).

Ambos autores tratam então o testemunho como elemento que possibilita a aprendizagem solidária em coletivos, favorecendo o diálogo.

   

   

3.4 A interdisciplinaridade

 

 

As propostas de Freire e Marques também convergem quanto à possibilidade de desdobramento da construção de um currículo interdisciplinar, criticando a fragmentação das disciplinas e a ausência de diálogo entre os saberes, educadores e educandos envolvidos na educação e deles entre si.

A interdisciplinaridade em Freire aparece em seus escritos e em suas práticas pedagógicas, especialmente quando foi secretário da educação no município de São Paulo, como relatamos no Capítulo anterior. O educador explica:

 

[...] durante todo o mês de janeiro e de fevereiro, trabalhamos na Secretaria com equipes de especialistas, físicos, matemáticos, psicólogos, sociólogos e cientistas políticos, lingüistas e literatos, filósofos, arte-educadores, juristas e especialistas em sexualidade. Analisamos diferentes momentos da prática educativa – a questão gnosiológica, a política, a cultural, a lingüística, a estética, a ética, a filosófica, a ideologia em “n” reuniões com estes especialistas, professores da USP, da PUC e da UNICAMP que vêm dando sua contribuição sem ônus para a Secretaria.

No dia 27 deste mês (fevereiro de 1989) teremos a primeira reunião plenária interdisciplinar em que avaliaremos os trabalhos até agora realizados e discutiremos a participação desses cientistas na etapa que agora iniciará – a em que começaremos o nosso diálogo no centro das escolas e nas áreas populares em que elas se situam [...].

Nossa intenção é possibilitar um diálogo entre grupos populares e educadores, entre grupos populares, educadores da rede e os cientistas que nos assessoram. (FREIRE, 1991, p. 37-38).

 

Balduino Antonio Andreola (2008, p. 68) comenta que vê Freire como um pensador interdisciplinar, principalmente em quatro pontos de vista:

 

         Preocupação interdisciplinar permanente de Freire e o trabalho interdisciplinar em equipe.

         Dimensões interdisciplinares da pedagogia do oprimido.

         Diálogo interdisciplinar em torno do binômio opressão/libertação.

         Recriação interdisciplinar da proposta epistemológico-pedagógico de Freire.

 

Ao longo das entrevistas concedidas como gestor do sistema educacional de educação São Paulo, Freire afirma preocupar-se com o diálogo entre educadores e educadores (das diferentes áreas do conhecimento), educadores e gestão escolar, educadores e educandos. Cita o exemplo de uma professora nos cursos de formação continuada:

 

Eu queria expor ao grupo minha prática e alguns obstáculos que venho encontrando e que não consegui resolver. E assim o faz. Nesse momento, ela concretiza o obstáculo que estava enfrentando. E então vem Vigotski, Emilia Ferreiro, os estudiosos que estudaram e continuaram estudando esse problema e que apresentam explicações teóricas para entendê-lo e enfrentá-lo. É assim que ensinamos Vigotski e não através de conferências sobre Vigotski. Isto é o que deve ser feito em todos os níveis da prática docente, com o professor de línguas, de história, geografia, matemática. Nós fizemos isto com a ajuda de três universidades de São Paulo. Tínhamos uma equipe muito boa da UNICAMP (Universidade de Campinas), a USP (Universidade de São Paulo) e da PUC (Pontifícia Universidade Católica) formada por filósofos, linguistas, cientistas políticos, professores de língua, de português, de sintaxe. Eles trabalhavam com os técnicos, com os educadores e educadoras que atuavam nas bases da Secretaria de Educação. (FREIRE, 1991, p. 224-225).

 

Freire relata este trabalho interdisciplinar realizado em sua gestão como secretário da educação, esclarecendo a importância dessa orientação nas formações continuadas e discussões de professores. Esclarece que o trabalho na educação é realizado por uma equipe de educação, técnicos, cientistas sociais, de forma interdisciplinar e dialógica também nos processos de alfabetização de adultos, explicitamente narrados ao tratar da investigação dos temas geradores em Pedagogia do Oprimido (1997a).

Os temas geradores podem ser localizados em círculos concêntricos, que partem do mais geral para o mais particular. Temas de caráter universal, contidos na unidade cotidiana, mas capazes de se apresentar de forma mais ampla, que inclui toda uma gama de unidades e características continentais, geográficas, regionais, nacionais, diversificadas entre si. Como proposição fundamental desta unidade mais ampla, refletimos a característica de temas como a “dominação” e a “libertação”, que indica o contrário do tema da dominação (FREIRE, 1997a, p. 94-95). É este tema (da dominação) angustiante que vem dando a nossa época o caráter antropológico

Os temas geradores para Freire podem ser realizados por meio de uma metodologia conscientizadora, inserindo os homens numa forma crítica de pensar o mundo (1997a, p. 97), com princípios interdisciplinares nos processos educativos e requisitos para favorecer a totalidade global na visão do mundo, sem trabalhar os saberes de forma fragmentada.

Sobre a Pedagogia do Oprimido, afirma Andreola (2008, p. 73):

 

Freire preocupou em mostrar, numa perspectiva interdisciplinar, a complexidade do problema da opressão, e oferecer pistas para aquilo que parece apresentar-se já como um convite do próprio Freire: que as estruturas da opressão sejam analisadas em todos os campos do conhecimento e combatidas sob todas as formas de ação.

 

Na perspectiva do diálogo e da interdisciplinaridade, Freire denuncia várias formas de opressão contra a liberdade humana (desigualdades sociais) e anuncia uma utopia, a capacidade que a humanidade tem de construir sua história e futuro livremente, não solitariamente mediante uma educação dialógica, libertadora.

A obra freireana se dá em um projeto global rumo à construção de uma nova sociedade, em uma perspectiva política, social, educacional não fragmentada, concebendo, no currículo escolar, uma visão interdisciplinar do conhecimento e da educação.

A interdisciplinaridade é uma exigência da objetividade científica, e não apenas uma preocupação acadêmica (2008, p. 87). É por intermédio de uma dimensão dialógica que podemos reconstituir a unidade das ciências e dos saberes rompendo a lógica fragmentária, parcial, específica, em um nível para além de cada uma delas e de cada um deles.

Marques (1996b, p. 82) enfatiza que a multiplicação/fragmentação das disciplinas descentra a natureza epistêmica da ciência da educação. Então, a educação passa a ser disputada pela intervenção de várias ciências e passa a se situar como ponto de interseção crescente.

Da situação educacional atual, a qual o autor define como “colcha de retalhos”, por ter vários conhecimentos especializados aplicados por um educador não especializado, surge a necessidade de uma recuperação da unidade teórica para tratar as questões da educação. Para que isso ocorra, ainda considera a pluridisciplinaridade e a interdisciplinaridade como medidas paliativas (1996b, p. 83):

 

No afã de recuperar a unidade teórica necessária ao tratamento das questões da educação, potenciando, ao mesmo tempo, as conquistas dos mais variados setores do conhecimento, apela-se frequentemente a expedientes meramente paliativos, tais a pluridisciplinaridade e a interdisciplinaridade tomadas em si mesmas. A multidisci-plinaridade não vale a integrar os saberes diversos, resultando na mera justaposição ou na confluência conflitiva deles. A interdisciplinaridade ainda não passa de vagas propostas, que esbarram em empecilhos: de ordem institucional, pela administração separada dos saberes; de ordem psicossocial, no enfrentamento da vontade do poder avessa à confrontação dos saberes e ao controle da opinião pública.

 

A fragmentação das ciências e dos saberes os afasta diante da realidade de forma irrecuperável, segundo Marques. Não basta uma decisão administrativa ou estratégica para romper a lógica fragmentada, nem o trabalho com modelos formais, não históricos, para mediar saberes especializados.

 

Necessita a sala de aula ser entendida como lugar de encontro para as relações educativas face a face e, sobretudo, de ouvido a ouvido, e como tempo de trabalho de uma turma de alunos e uma equipe de professores que efetivamente a constituem: uma unidade em que se supere a fragmentação das disciplinas e das responsabilidades, em práticas orientadas por e para linhas e eixos temáticos e conceituais interdisciplinares, não apenas uma justaposição de disciplinas enclausuradas em si mesmas, mas de maneira que, em cada uma, se impliquem as demais regiões do saber. (MARQUES, 1993, p. 111).          

 

Aponta, então, para o paradigma da complexidade, que substitui o circuito da redução pelos inúmeros círculos da comunicação. Nesse paradigma complexo, em que a Pedagogia necessita permanente comunicação com as demais ciências e essas necessitam comunicar -se entre si, buscará na interdisciplinaridade e intradisciplinaridade (dentro das disciplinas) o confronto válido a “superar os antagonismos em sua autoconstrução e na construção da unidade profunda das ciências, inseparável da universalização do saber” (MARQUES, 1996b, p. 83-84).

Freire e Marques defendem o rompimento com a fragmentação nos processos educativos. Freire, por meio do diálogo que integra sujeitos e da interdisciplinaridade que integra o conhecimento, usa como estratégia integradora os temas geradores, que, para serem trabalhados, necessitam de uma relação dialógica e abordagem complexa em que os limites das disciplinas se fundem. Marques, por sua vez, propõe o diálogo, a interlocução dos saberes e explicita sua opção pela transdisciplinaridade, que é a forma de relação entre os saberes e as ciências mediante intersecção.

 

 

3.5 Reflexão  

 

                                                                                                                                                                                

Em relação à EJA, as propostas de Freire e Marques se aproximam a partir da preocupação com a sociedade contemporânea neoliberal, ideologia conservadora, autoritária, em que as estratégias de dominação acontecem e atuam dificultando a capacidade de refletir sobre o debate e o diálogo entre educandos e educadores. Nesse sentido, quanto mais fechados os canais de diálogo maior passividade haverá dos oprimidos e mais distante da libertação estarão os mesmos.

Marques reforça que a racionalidade instrumental aprofunda os níveis de alienação humana em sociedade, atrofiando, assim, o potencial comunicativo e, no caso da EJA, isso fica extremado pela condição dos educandos que trazem à sala de aula experiências vivenciais caracterizadas por alguma forma de dominação. Como grande desafio, tem-se então: construir a comunicação entre educandos e educadores, educandos e educandos, educadores e educadores, educadores e gestão administrativa escolar, gestão administrativa escolar e sociedade, educadores e sociedade, educandos e sociedade, o que só se torna possível mediante o livre-debate.

 

Ambos os autores propõem, assim, uma reconstrução cultural com base nas experiências vivenciais humanas. Essa proposta de reconstrução cultural pode ser priorizada curricularmente na EJA por meio das histórias de vida dos educandos, das leituras de mundo, pelo favorecimento da expressão e da subjetividade dos educandos/educadores, pelo diálogo e pela produção de conhecimentos coletivamente.

Ao analisarmos o processo de formação de alfabetizadores no Projeto Alfabetiza Rio Grande, no âmbito da 36ª Coordenadoria Regional de Educação do Rio Grande do Sul, 2003-2006, queremos verificar até que ponto as propostas de Freire e Marques para uma educação dialógica e inter/transdisciplinar estão ali contempladas. É este o objetivo que move o próximo Capítulo desta dissertação.


4 RELAÇÕES DIALÓGICAS, INTERDISCIPLINARES E/OU TRANSDISCIPLI-NARES VIVENCIADAS EM UM PROJETO DE EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS NO MUNICÍPIO DE IJUÍ, RS

 

 

Iniciamos este Capítulo apresentando alguns acontecimentos da história da Educação de Adultos no Brasil, de forma a acompanhar sua institucionalização.

A seguir apresentamos o Projeto Alfabetiza Rio Grande, “programa” de educação de jovens e adultos desenvolvido no RS, no período de 2003 a 2006, dando destaque às características que assumiu na 36ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE), com sede em Ijuí, especialmente quanto à formação de alfabetizadores. Neste período, este processo, no âmbito desta coordenadoria esteve sob a responsabilidade da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí).

Em um terceiro momento, fazendo uma análise dos depoimentos dos formadores de alfabetizadores sobre sua atuação no Projeto, destacamos o que relatam sobre as relações dialógicas e construção da inter/transdisciplinaridade no processo formativo.

 

 

4.1 EJA, uma modalidade de ensino

 

 

A história da educação de adultos no Brasil é marcada pela descontinuidade de práticas e orientações. Nem sempre, no entanto, essa descontinuidade resulta de movimentos que indicam rupturas nas orientações teóricas, metodológicas e políticas das práticas educativas. Há momentos, porém, em que rupturas se processam, dão abertura a novas construções e estas se transformam em marcos de referência nessa história.

 

A EJA tem marcas de diferentes trajetórias e inúmeras experiências, desenvolvidas ao longo de várias décadas. Em diferentes momentos históricos a EJA organizou-se de diversas formas, criando um amplo leque de experiências, partindo de variados pressupostos. Seja respondendo às exigências sociais ou atendendo às necessidades institucionais, nas ações governamentais ou nos movimentos populares, a educação de pessoas jovens e adultas vem constituindo em rica página da história da educação no Brasil. (WADI, 2005, p. 22).

 

Desde o tempo em que o país era colônia de Portugal, os jesuítas ensinavam princípios religiosos e procuravam transmitir aspectos de sua cultura aos indígenas e, mais tarde, aos escravos, realizando uma educação de adultos.

A educação de adultos esteve, na maior parte de sua história, associada ao propósito de adequação da mão de obra trabalhadora às necessidades da época e do aumento de número de eleitores.

A Constituição brasileira de 1824 teve a intenção de assegurar a instrução primária a todos os cidadãos, mas na prática não conseguiu. Em 1891, a constituição responsabilizou as províncias e municípios pelo ensino público e manteve o impedimento de voto aos analfabetos.

Na Constituição brasileira de 1934 foi criado o Plano Nacional de Educação. O plano definia as competências da União, dos Estados, dos municípios, visando o direito a todos de cursarem as Séries Iniciais do Ensino Fundamental (denominado na época de Ensino Primário), que passou a ser gratuito e de frequência obrigatória. Mesmo assim, ainda não se falava em Educação de Jovens e Adultos no Brasil.

A educação de adultos foi desencadeada por meio de campanhas de alfabetização na década de 40 (quando também foi regulamentado um Fundo Nacional do Ensino Primário com recursos destinado ao Ensino Supletivo). Em 1947 foi criado o Serviço de Educação de Adultos pelo Ministério da Educação e Saúde, por pressão da Unesco. Surge, então, a primeira Campanha Nacional de Alfabetização de Adultos.

Na década de 50 são promovidas no Brasil inúmeras campanhas visando a erradicar o analfabetismo no país. Em 1958 ocorre o 2° Congresso Nacional de Educação de Adultos, no Rio de Janeiro, quando foram apresentadas e discutidas as preocupações dos educadores com o direito à educação e com a qualidade das práticas pedagógicas. Esse evento foi considerado um marco na história da educação de adultos no Brasil, pois levou em conta o fracasso das campanhas anteriores e valorizou o contexto dos educandos.

Paulo Freire, ao final dos anos 50, integra-se ao cenário da educação brasileira e sua atuação como educador objetiva a enfrentar o analfabetismo e a reverter o quadro de exclusão e opressão, apontando um viés crítico e libertador. Freire propõe uma prática de alfabetização de adultos, levando em consideração o próprio universo vocabular dos alfabetizandos. Afirma que a leitura de mundo precede a leitura da palavra. Nessa década, as ideias freireanas influenciam propostas governamentais e espaços dos movimentos sociais, que apoiam uma educação de adultos libertadora.

Em 1964[16], com a ruptura política no país, são alteradas as orientações da educação e, consequentemente, as práticas pedagógicas, na educação de adultos, passam por mudanças. Os interesses populares não são priorizados. O governo federal organiza o Movimento Brasileiro de Alfabetização (Mobral) e, em 1969, o Ensino Supletivo. Campanhas governamentais são promovidas, mas estas não propunham uma continuidade da alfabetização que levasse à escolarização dos educandos.

A Lei n° 5.692/71 regulamenta o Ensino Supletivo correspondente ao antigo Primário com uma estrutura pedagógica própria, visando à aceleração dos processos de aprendizagens. Os ambientes de aprendizagens se dão em Centros de Estudos, Cursos Supletivos, Ensino a Distância e Exames Supletivos.

Na década de 80 foi extinto o Mobral e criada a Fundação Educar (1985). Em 1986, grupos de trabalho na educação de adultos firmam convênios com a Fundação Educar, que repassava recursos para ajudar nos custos dos educadores e nos materiais didáticos empregados. Com a extinção da Fundação Educar, em 1987, houve cortes de recursos financeiros e foi criado o Programa Nacional de Alfabetização e Cidadania (PNAC), que não chegou ser instituído.

Somente a partir da Constituição de 1988 ampliou-se o dever do Estado para com todos os sujeitos que não têm escolaridade básica, independente da idade, reconhecendo que a sociedade foi incapaz de garantir a mesma, erradicar o analfabetismo e universalizar o Ensino Fundamental. Ao levar em conta os méritos de uma escolarização básica e reconhecê-la como direito de todos, fica mais claro como a Educação de Jovens e Adultos é indispensável como modalidade de ensino, intensificando o movimento sociopolítico para institucionalizá-la, de forma a possibilitar a todos os brasileiros e brasileiras oportunidades de acesso a conhecimentos científicos e tecnológicos por meio da educação formal. Os pareceres específicos dessa modalidade de ensino, capazes de consolidar os ganhos constitucionais, contudo, só passam a ser instituídos a partir de 2000 (PATTO, 1993).

 

A EJA, nas últimas décadas, necessitou de transformações significativas para cumprir, de maneira satisfatória, sua função de preparar jovens e adultos para a participação social e para a atuação no mundo do trabalho.

Na Lei de Diretrizes e Bases da Educação, n° 9.394/96, promulgada em 1996, a gratuidade da escola pública é mantida. Referências à EJA são citadas em alguns de seus artigos. Um dos avanços importantes é a incorporação da EJA no Ensino Fundamental. O Estado tem a função de garantir o Ensino Fundamental gratuito a todos, independente da idade, mesmo que o acesso a esse grau de ensino fosse um direito público amplo, não determinado a algum poder específico.

Transformações foram norteadas pelos valores apresentados na 5° Conferência Internacional de Educação de Adultos, ocorrida na cidade de Hamburgo, na Alemanha, em julho de 1997. Nessa conferência, o Brasil assume compromissos com a EJA, revisa o seu conceito e amplia a importância da alfabetização (que passa a ser considerada conhecimento básico, direito humano fundamental).

O Parecer CNE/CEB 11/2000 (Conselho Nacional de Educação/Câmara de Educação Básica) estabelece as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação de Jovens e Adultos. O currículo da EJA, a partir desse momento, passou a incluir o desenvolvimento de conteúdos e práticas pedagógicas que procuram cumprir a função reparadora. Reparadora por tentar realizar uma reparação da dívida, inscrita na história social brasileira, para com os educandos da EJA:

 

Desse modo, a função reparadora da EJA, no limite, significa não só a entrada no circuito dos direitos civis pela restauração de um direito negado: o direito a uma escola de qualidade, mas também o reconhecimento daquela igualdade ontológica de todo e qualquer ser humano. Desta negação, evidente na história brasileira, resulta uma perda: o acesso a um bem real, social e simbolicamente importante. Logo, não se deve confundir a noção de reparação com a de suprimento. (BRASIL, 2000b,      p. 7).

 

Esta função reparadora da EJA articula-se com a demanda de inúmeras pessoas que não tiveram uma adequada possibilidade de prosseguimento de estudos na Educação Básica em idade apropriada. Preparar essa realidade, torna-se um ponto de partida para a introduzir a igualdade de oportunidades, que demanda uma função também equalizadora:

 

A função equalizadora da EJA, presente nesse parecer vai dar cobertura a trabalhadores e a tantos outros segmentos sociais como donas de casa, migrantes, aposentados e encarcerados. A reentrada no sistema educacional dos que tiveram uma interrupção forçada seja pela repetência ou pela evasão, seja pelas desiguais oportunidades de permanência ou outras condições adversas, deve ser saudada como uma reparação corretiva, ainda que tardia, de estruturas arcaicas, possibilitando aos indivíduos novas inserções no mundo do trabalho, na vida social, nos espaços da estética e na abertura dos canais de participação. Para tanto, são necessárias mais vagas para estes “novos” alunos e “novas” alunas, demandantes de uma nova oportunidade de equalização. (BRASIL, 2000b, p. 9).

 

A função equalizadora se dá pela necessidade de os educandos da EJA serem vistos e tratados de forma igualitária na distribuição dos bens sociais, no caso começando pelo direito à educação. Por esta função, o indivíduo que teve interrompida sua formação, por qualquer que tenha sido a razão, pode restabelecer sua trajetória escolar.

O parecer ainda aponta a necessidade e a possibilidade de atualizar conhecimentos por essas pessoas que não tiveram ou perderam o contato com a escolarização. Esse parecer atribui à escola uma função permanente de atualizar os conhecimentos dos educandos da EJA, agora inclusos legalmente na legislação educacional brasileira. Tal função, de qualificar permanentemente, é chamada de função qualificadora.

 

Mais do que uma função, ela é o próprio sentido da EJA. Ela tem como base o caráter incompleto do ser humano cujo potencial de desenvolvimento e de adequação pode se atualizar em quadros escolares ou não escolares.  Mais do que nunca, ela é um apelo para a educação permanente e criação de uma sociedade educada para o universalismo, a solidariedade, a igualdade e a diversidade. (BRASIL, 2000b, p. 11).

 

O Parecer do CNE/CEB de 11/2000 acompanha as resoluções presentes nos pareceres CNE/CEB 4/1998, CNE/CEB 15/1998 e CNE/CEB 16/1999. Nele há orientações próprias aos sistemas de ensino referentes aos componentes curriculares com modelo pedagógico próprio à educação de jovens e adultos e expressos nas propostas pedagógicas das unidades educacionais (colégios, escolas, núcleos, instituições...).

A EJA, no Brasil, é constituída hoje como uma modalidade da Educação Básica. Caracteriza-se oficialmente pela oferta de ensino à população de faixa etária superior a 15 anos, para o ingresso no Ensino Fundamental, e maior de 18 anos para o Ensino Médio, que não cursou ou não concluiu no período padrão priorizado a esta aprendizagem.

É ofertada atualmente em instituições educacionais, em estabelecimentos de ensino privado (colégios, escolas, núcleos, instituições...) e em convênios com entidades, poder público, movimentos sociais e empresas que estimulam a escolarização de seus funcionários. Ocorrem, em quaisquer desses âmbitos, processos de alfabetização, cursos de Ensino Fundamental e Ensino Médio.

Muitos desses convênios com entidades privadas e setor público apresentam inadequações pedagógicas, professores não preparados para atuação na EJA, má remuneração (ou pior ainda, a visão assistencialista de voluntariado para esses profissionais) e má qualidade física das salas onde são ministradas as aulas. A descontinuidade de políticas públicas específicas a essa modalidade de ensino causa, como apontamos, transtornos para a EJA.

A história da EJA no país remete a aspectos da exclusão social, cultural e à ausência de políticas públicas capazes de manter um projeto com continuidade. Tenta, precariamente, recuperar o tempo de vida escolar desses sujeitos que não puderam concluir seus estudos no tempo regular determinado ao Ensino Básico. Para “recuperar esse tempo” é importante dotar a EJA com políticas públicas definidas e com potencial para trazer esses sujeitos à sala de aula. Para resgatá-los e mantê-los em sala de aula, acreditamos ser necessário ensinar com os princípios do diálogo, da integração entre os saberes, da multiculturalidade.[17] Atendidos esses princípios, pensamos ser possível realizar uma educação que rompe com a lógica fragmentada de transmissão de conhecimento sem a sua contextualização. Para romper com essa fragmentação dos saberes, entendemos que a interdisciplinaridade em Freire e a transdisciplinaridade em Marques podem contribuir como estratégias pedagógicas para a EJA.

Procuramos, a seguir, problematizar uma prática do Projeto Alfabetiza Rio Grande, no período de 2003 a 2006, identificando como foram incorporados saberes e ações que proporcionaram relações com características dialógicas, interdisciplinares e transdisciplinares nas práticas de formação continuada dos professores para a EJA.

                            

 

4.2 O Projeto Alfabetiza Rio Grande na 36ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE)

 

 

O Projeto Alfabetiza Rio Grande foi um programa realizado pelo governo estadual do Rio Grande do Sul no período de 2003 a 2006.

Com as prioridades de instituição das Diretrizes Curriculares Nacionais para a EJA, a Secretaria Estadual, com base na proposta de inclusão educacional que encaminha a uma inclusão social, buscou atingir o contingente populacional excluído do processo educativo.

A Secretaria de Estado da Educação propôs o desenvolvimento da política de alfabetização e de formação continuada, assegurando atender analfabetos absolutos, resgatando a escolaridade de analfabetos funcionais e realizando a formação continuada de docentes e discentes.

O Projeto Alfabetiza Rio Grande, foi oficializado pelo Governo do Estado no ano de 2003, porém as formações de alfabetizadores principiam no ano de 2004. Em todo o Estado as formações de formadores (alfabetizadores e professores de escolas estaduais nas quais a EJA estava presente) ocorreram em parceria com diferentes Instituições de Ensino Superior em atuação no Estado.

No caso em estudo, essas formações de alfabetizadores ocorreram ao longo do período de desenvolvimento do Projeto-quinzenalmente-na cidade de Ijuí, Rio Grande do Sul, sede da 36ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE). As formações do Projeto Alfabetiza Rio Grande na 36ª CRE foram assessoradas pela Unijuí.

Na 36ª CRE, a formação dos alfabetizadores buscou desenvolver o registro, a reflexão, o debate e a socialização de práticas educativas realizadas na EJA em processos de formação continuada (DALLEPIANE, 2008, p. 5). Esse processo de formação continuada manteve-se articulado a eventos de EJA municipais, regionais, estaduais e federais, buscando socializar saberes e aprender com novas experiências.

Ao descrever quem eram esses formadores, a coordenadora da formação do Projeto Alfabetiza Rio Grande afirma:

 

O grupo de educadores-formadores eram professores da Universidade de Ijuí com formação e experiência, especialistas, mestres e doutores, envolvidos com causas sociais, projetos e processos de inclusão, demonstrando grande envolvimento, planejando, estudando, pesquisando e registrando o processo de aprendizagem pelo qual também estavam passando. Sentiam-se também aprendentes junto às alfabetizadoras e a alfabetizandos.  A Unijuí tem (tinha) uma marca histórica forte de concepções relacionadas à educação, aprendizagem, ensino, metodologias, avaliação, etc., o que deu uma certa unidade na articulação das diferentes áreas, mesmo sem o tempo necessário de planejamento coletivo. (Formadora Área Avaliação, Sistematização do Conhecimento).

     

O nível escolar exigido aos alfabetizadores do Projeto foi formação de nível médio (curso Normal ou Magistério) ou superior (licenciatura). Verificamos que na região da 36ª CRE, pertencente ao governo estadual do Rio Grande do Sul, apenas 16% dos alfabetizadores possuíam curso superior completo e 33,3% estavam cursando (FERNANDES, 2008, p. 52).

Acompanhamos os depoimentos que revelaram a “insegurança” dos alfabetizadores que eram contratados por um período de 6 meses e demoravam até 5 meses para receber sua remuneração de R$ 300,00 (trezentos reais), sem direito à carteira assinada e a outros direitos trabalhistas. Com todas essas dificuldades, educandos estavam tendo acesso à aprendizagem de conteúdos das séries iniciais e ao direito de se apropriarem do código da leitura e escrita. O Projeto foi interrompido pela mudança, em 2007, de governador do Estado, que extinguiu o programa estadual de alfabetização e não criou outro similar que contemplasse, em âmbito estadual os mesmos sujeitos (analfabetos absolutos, analfabetos funcionais e sujeitos que não concluíram as Séries Iniciais do Ensino Fundamental e podem ser inseridos no processo de escolarização). É essa formação, sob o foco do diálogo e da intertransdisciplinaridade, que analisamos no próximo item.

Durante o Projeto Alfabetiza Rio Grande, a formação continuada com alfabetizadores abrangeu a Área Sociolinguística, Área Sóciocientífica/Matemática e Ciências Naturais, Área Histórico-Social e a Área do Planejamento, Avaliação e Sistematização do Conhecimento, sob responsabilidade da Instituição de Ensino Superior (IES), no caso, a Unijuí.

 

 

4.3 O diálogo e a construção intertransdisciplinar no processo formativo de alfabetiza-dores para a EJA no Projeto Alfabetiza Rio Grande

 

 

As diretrizes político-pedagógicas do Projeto Alfabetiza Rio Grande tratam da importância de relações dialógicas, em perspectivas freireanas, no processo formativo dos alfabetizadores e nos processos educativos dos educandos.

Nas Diretrizes Político-Pedagógicas que orientam o Projeto propõem-se como meta a produção de material didático pedagógico, construído a partir de discussões dos docentes/discentes e a possibilidade de acordos conveniados entre Estado, as instituições de ensino superior, os municípios, as entidades governamentais e não-governamentais e a sociedade civil, descentralizando propostas pedagógicas e metodológicas (RIO GRANDE DO SUL, 2003-2006, p. 45).

Consta ainda nas metas do Projeto que os educadores deviam observar as áreas de conhecimento, diferentes graus de ensino, o domínio das habilidades e as competências expostas nas Diretrizes Curriculares Nacionais e em Documentos do Sistema Estadual de Ensino. Partindo desses referenciais, os educadores deviam:

 

discutir e questionar a flexibilidade dos currículos críticos, o processo de conhecimento referendado no contexto e fora dele, a construção de saberes e vivências, os diferentes tempos necessários às aprendizagens e às rígidas separações curriculares. O currículo deve integrar as áreas do conhecimento interdisciplinarmente, admitindo diferentes metodologias e construindo a práxis educativa. (RIO GRANDE DO SUL, 2003-2006, p. 45-46).

 

Dessa forma, o Projeto sugere uma integração dos saberes, como propõe Marques diante do livre-debate e a construção de uma práxis educativa e conforme sugere Freire, por meio do diálogo.

Uma das metas do programa, definida como a produção de material didático-pedagógico, construído a partir de discussões dos docentes/discentes, é referenciada no princípio do diálogo em Freire, nas experiências de vida dos educandos e saberes por eles constituídos.

Na avaliação reflexiva que realizamos junto aos formadores eles evidenciaram que as relações dialógicas estiveram presentes nas formações. Elas são descritas na narração de experiências que as alfabetizadoras traziam da realidade de cada turma, de suas experiências, de como ocorria o desenvolvimento dos projetos que planejavam em grupo. O diálogo entre as disciplinas foi articulado baseado no conceito freireano pelos formadores:

 

Esse grupo de formadores pesquisou nos PCNs e atuou com suas experiências, usando diálogo interdisciplinar ao trabalhar nas formações. O diálogo durante a formação foi muito profundo. Discutimos conceitos de duas ciências da Área e como se articulam em trabalho temático, com base em Freire na articulação nas formações. Apareciam experiências e práticas muito ricas que as alfabetizadoras traziam para as formações. Transitava uma compreensão do que foi o Projeto na construção do sujeito, nas aprendizagens, quem eram os educadores e os educandos, projetos e questões temáticas nos projetos. (Formadora Histórico-Social do Grupo de Alfabetizadores do Projeto).

 

 

Houve produção e uso de material didático que favoreceu o diálogo como princípio educativo nas formações dos alfabetizadores.

Tipos de cartazes, cartazes para pesquisa com ajuda dos alunos, artesanatos, produção de material para o ambiente de alfabetização de sala de aula a partir da literatura, explorando-as com atividades, jogos. Em todas as formações houveram partes práticas, em que se provocou o diálogo. Os alunos participam bem mais quando produzem materiais como cestas, quadros, em oficinas. No momento das oficinas práticas há uma descontração nas pessoas que trazem suas práticas de uma forma mais informal, tanto que falavam. (Formadora da Área Sociolinguística).

 

 Nas formações sempre havia espaço para apresentações, (re)apresentações de quem estava presente nas reuniões, de que lugar estava alfabetizando, qual a realidade da cidade ou do bairro onde viviam e o que esses alfabetizadores esperavam das formações. Os formadores trabalharam com materiais didáticos que exigiam opiniões, reflexão do grupo em forma de textos, vídeos, fotos, experimentos, experiências e sugestões, como realização de alguns passeios pedagógicos com os educandos. Os formadores também trabalharam com a confecção de jogos didáticos com os alfabetizadores, o que também proporcionou diálogo e interação entre os mesmos.

Constatamos a importância que esses formadores dão às relações dialógicas mediadas nos ambientes de aprendizagem por um educador. Reconhecem o quanto é difícil se autoavaliar se praticam ou não um diálogo verdadeiro, mas percebem a importância de insistir nessas relações uma vez que o diálogo promove a (re)significação de alguns conhecimentos e conceitos.

 

A inter-relação, o diálogo promove significação pelas diferentes formas de se ver um aspecto, organizando, sistematizando os conhecimentos, conceitos. Coloca a possibilidade [de comunicação] entre os diferentes, desmonta e (re)significa o conceito, ampliando esse conceito. O diálogo traz tensões por permitir espaço a todos, na diversidade. Os processos com o diálogo se (re)constroem por mediadores culturais. (Formadora Histórico-Social).

 

Nessa perspectiva, o diálogo, além de (re)significar os conhecimentos e conceitos, também os (re)estrutura de uma forma abrangente, que se abre a outros conhecimentos.

 

Essa realidade dialógica é como essa entrevista [oral], vamos reestruturando, ressignificando esses conceitos. Nas exatas é pelo diálogo que conseguimos “extrapolar”, indo além daquela ideia de apenas falar, fazendo entendimento do que é importante. Ex: Educação Ambiental, promovendo diálogo, questionando para que essas aprendizagens sejam significativas e sejam realizadas novas práticas em relação a esse tema no cotidiano. (Formadora da Área Sociocientífica/ Matemática e Ciências Naturais).

 

O diálogo também proporciona uma percepção da realidade do grupo com quem se trabalha em uma formação continuada de alfabetizadores e a continuidade ou não dos planejamentos:

O entendimento da realidade do grupo que está presente, a partir dessas percepções observamos se o planejamento inicial pode ser trabalhado daquela forma. Trabalhar com as singularidades das diferentes realidades que são incorporadas em novos planejamentos sem fugir dos princípios da formação mas significando conteúdos. Assim, estabelecendo de forma profunda os vínculos de ensino, de aprendizagem que nem sempre ocorrem conforme tudo o que queríamos. A formação deve ser continuada e, no mínimo, decenal. (Formadora da Área Sociolinguística).

 

A citação anterior, descrita pela formadora, enfatiza a importância da continuidade nas formações; ela sugere que as formações para alfabetizadores de EJA sejam mais extensas e que ressaltassem o planejamento:

 

A questão do planejamento coletivo deveria ser melhor acompanhada [pelos formadores]. Através dos planejamentos dos alfabetizadores proporem outras práticas: diálogo, planejamento participativo, contextualização com o cotidiano, observação, tematização ou projetos. Trabalhava com a metodologia de projetos que busca o tema, o contexto, a comunidade em que vive. Como as formações começaram no meio das aulas tais práticas foram menos trabalhadas [acredita que essa questão do planejamento coletivo foi prejudicada por esse aspecto. As formações começavam quando as aulas já estavam em andamento, às vezes há dois meses. Considerando que o Projeto Alfabetiza Rio Grande tinha uma duração de seis meses, esse número torna-se bem significativo]. (Formadora da Área Socio-linguística).

 

Em vários momentos das formações estão presentes práticas dialógicas, mediadas pelos formadores: quando os alfabetizadores contextualizavam suas práticas, quando manifestavam as necessidades de refletir, nos questionamentos que realizavam, nas tentativas de viabilizar os planejamentos e as aprendizagens nas formações, na realização de projetos de interesse dos educandos, no momento de contato com os alfabetizadores.

Quando indagamos a respeito de como os alfabetizadores se prepararam e receberam a participação dos formadores, houve depoimentos sobre o interesse em partilhar vivências, trocar ideias e práticas metodológicas:

 

Se prepararam da melhor maneira que entendem. Sabiam ter que alfabetizar e para isto buscaram exercícios em materiais anteriores, alguma coisa em sugestões de materiais didáticos do GEEMPA,[18] em livros didáticos afins. Mostraram o planejamento, cadernos de planos, trouxeram alguns livros que retiravam exercícios, contavam suas dinâmicas e queriam muito ajuda. Acolhiam as ideias que levei, mas tinham dificuldades em implementar ou conciliar com as suas. Diziam destas dificuldades e procurávamos ver a melhor forma de trabalho. Demonstravam querer ajuda e trocar ideias. Acolheram na maioria as sugestões sobre saídas de sala de aula, pesquisas e procuraram estabelecer relações. Alguns planejamentos evoluíram significativamente. Houve apoio significativo por parte da Coordenação da SMED no trabalho da formação e principalmente para auxiliar nos projetos que cada professora desenvolveu tentando viabilizar as saídas, visitas, passeios e ou materiais. (Formadora da Área Sociolinguística).

 

Percebemos o interesse dos formadores em ouvir e dialogar com os alfabetizadores durante os encontros de formação. É difícil avaliar, porém, o grau de profundidade que assumiram essas relações dialógicas. O que constatamos é que os formadores preocuparam-se em proporcionar relações dialógicas durante as formações: abrindo espaços de escuta, reflexões coletivas e provocando os alfabetizadores a participarem de debates a partir de suas realidades.

Quando perguntamos aos formadores como a formação de alfabetizadores incorpora o tema do diálogo nas aulas dos alfabetizadores, essa dificuldade de avaliar se houve ou não relações dialógicas é evidenciada por uma formadora:

 

No grupo em que participei, uns quatro ou cinco alfabetizadores demonstraram o princípio do diálogo em suas práticas [o que corresponde a cerca de 20% do grupo de alfabetizadores]. Sugerimos que todos os alfabetizadores trouxessem seus planejamentos; eles mostravam seu trabalho, mas poucos tinham qualquer metodologia flexível onde se via comunicação entre professores e alunos. Demoraram para expor suas práticas, pois creio que eles não trabalharam os princípios que estávamos propondo nas formações (sociointeracionistas, construtivistas, histórico-sociais) e não realizavam na prática. Precisamos, como formadores ter muita sensibilidade para trabalhar esses aspectos para não criticar [menosprezar] o trabalho que os alfabetizadores vêm desenvolvendo. Na EJA os alfabetizandos esperam o dia de aula para dialogar, possuem necessidade de diálogo. Gostam de ir nas aulas, do afeto e do diálogo. Se isso fosse aproveitado pelos alfabetizadores já seria um grande avanço (Formadora da Área Sociolinguística).

 

Além do diálogo, pontuamos a perspectiva de trabalho metodológico diferenciado e intencionado conforme a realidade dos educandos da EJA, presentes nas Diretrizes do Projeto Alfabetiza Rio Grande. Identificamos também, no texto das Diretrizes citadas, a presença do ideal freireano da criticidade, da ampliação dos campos dos saberes dos educandos e a proposta de relacionar as disciplinas.

 

Assim deve ser observado que os conteúdos trabalhados devem ser de modo diferenciado, com métodos e tempos intencionados ao perfil deste estudante, bem como o tratamento didático dos conteúdos e das práticas não se pode ausentar nem da especificidade da EJA e nem do caráter multidisciplinar e interdisciplinar dos componentes curriculares. (RIO GRANDE DO SUL, 2003-2006, p. 51).

 

Nas Diretrizes do Projeto Alfabetiza Rio Grande (2003-2006, p. 57-58) se fazem presentes: a importância da formação multicultural (quando educadores e educandos veem suas ações culturais reconhecidas e representadas); a compreensão e significação dos saberes e das práticas adequadas às necessidades dos educandos; e o acesso ao conhecimento tendo papel significativo, relacionando os saberes científicos e cotidianos nas esferas políticas, econômicas e sociais. Tais princípios praticados na EJA promovem possibilidades interdisciplinares e transdisciplinares na ação educativa.

No Projeto, destaca-se a importância da fundamentação para a formação multicultural dos envolvidos nos processos educativos e a ação pedagógica definida como interdisciplinar. Tais aspectos buscam um olhar atento às diferentes realidades dos educandos, pois essa é uma forma de contextualização integrando saberes e áreas do conhecimento, buscando romper com as fronteiras entre as disciplinas, como sugere Marques (1991, p. 14):

 

São as práticas culturais concretas em que se envolve a comunidade local e, de modo especial, os educandos, são elas que devem definir os temas que se correlacionam no currículo escolar, com vistas a serem melhor entendidos e trabalhados sob a forma dos conhecimentos com que lida com a escola.        

 

O Projeto Alfabetiza Rio Grande indicou em suas diretrizes curriculares que fossem reconhecidas as diferentes culturas dos educandos. Era necessário também representá-las, (re) significando os conteúdos curriculares em suas turmas de alfabetização e nas formações continuadas de professores.

Como estratégia para combater o analfabetismo da população urbana e rural, por meio das ações de alfabetização e de educação continuada, o Projeto foi organizado mediante a construção curricular denominada Totalidade. Essa concepção curricular busca romper a lógica de seriação e significar os conteúdos.

Na Totalidade, “a construção do conhecimento pode ser organizada através das áreas que, trabalhadas interdisciplinarmente, compõem as Totalidades do Conhecimento” (RIO GRANDE DO SUL, 2003-2006, p. 35).

 

Buscou-se também no Projeto Alfabetiza Rio Grande, a discussão, o questionamento, a organização de currículos críticos, o processo de conhecimento referendado no contexto e fora dele, a construção de saberes e vivências, os diferentes tempos necessários às aprendizagens e a recusa às rígidas separações curriculares. Ainda como mencionamos nas Diretrizes do Projeto (2003-2006, p. 45-46), o currículo previa integrar as áreas do conhecimento interdisciplinarmente, admitindo diferentes metodologias e construindo a práxis educativa.

Realizar a formação dos alfabetizadores mediante os três princípios apontados nas diretrizes do Projeto de EJA, foi uma tarefa ousada que exigiu conhecimento da atuação, da realidade e percepção dos paradigmas que orientam as práticas desses formadores. Trata-se de um desafio que interferiu diretamente na qualidade dos processos educativos.

A formação de professores exigiu um autoconhecimento, reflexão histórica e  pedagógica e a busca mediante o diálogo entre os sujeitos e os saberes, na constituição de um currículo capaz de possibilitar aos educandos a compreensão da sociedade contemporânea, cuja realidade, é complexa.[19]

 

Não é compatível com os dinamismos da sociedade contemporânea a idéia de um currículo concebido como plano de estudos, programa preestabelecido em elenco de disciplinas sujeitas a objetivos e métodos definidos em outras instâncias e lugares sociais, que não os da educação mesma. Devem ser consensualmente validados, sempre de novo, os critérios sobre o que se tem de ensinar e aprender, quando e como, numa sociedade que se quer democrática e pluralista, atenta aos valores e interesses dos indivíduos e grupos em igualdade de oportunidades, cônscia das e peculiaridades relações que mantêm com os processos da educação e sensível à incorporação em larga escala dos avanços científicos e tecnológicos. (MARQUES, 2002, p. 90-91).

 

O currículo que considera as diversas dimensões da formação do sujeito (educador e/ou educando) compreende de forma mais abrangente os processos educativos em uma perspectiva não fragmentada.

Assim considerado, leva em conta as dimensões objetivas e subjetivas da formação do sujeito e das relações sociais que esse estabelece nos processos educativos e no mundo. Resgata não apenas experiências pessoais, mas também estimula a troca de experiências e dá ênfase às dimensões coletivas. O currículo pode, dessa maneira, construir coletiva e dialogicamente sentido aos saberes, aproximando os conhecimentos de forma inter/transdisciplinar.

Nas falas dos formadores do Projeto Alfabetiza Rio Grande, pode-se perceber o reconhecimento da realidade do educando e/ou do educador nos processos educativos como referência para compreensão, significação de conhecimentos e como possibilidade de um novo olhar à EJA:

 

Os conceitos cotidianos explicitados pelos alunos podem ser referências importantes para o professor conhecer as concepções e saberes que seus alunos têm na relação com o mundo da vida. São referências para entender a imersão que eles têm na sua cultura, quais os significados atribuídos às suas ações e formas de pensar. O professor ao considerar esse conhecimento na escola pode negociar a partir dele novos significados. Atuando sobre situações que o aluno conhece, estabelece novas formas de entender o cotidiano mediante a significação de conhecimentos escolares relacionados. Entende-se por esses conhecimentos o que tem relação com o cotidiano e entre áreas de estudo. Para o trabalho com a EJA, o professor pode, a partir desse processo, construir conjuntamente com os alunos tematizações para gerar planos de estudos que considere esses diferentes saberes e produza novas formas de entender suas vivências e experiências num outro nível conceitual, produzido na relação com os conhecimentos escolares. Penso que nesse diálogo as disciplinas podem firmar possibilidades de articular pontos de convergência e desenvolver um trabalho em que a problematização busque, nas áreas do conhecimento, elementos para explicar, recontextualizar o conhecimento sobre o mundo das vivências. (Formadora da Área Histórico-Social).

 

A partir da convivência com o Programa, de suas experiências e estudos teóricos, perguntamos como é possível realizar uma integração do conhecimento científico partindo da sua área de saber com as outras, reconhecendo os conhecimentos cotidianos. Os formadores responderam que, por intermédio de uma perspectiva contextualizadora e significativa, é possível trazer para as discussões escolares vários saberes:

 

A área de Ciências é uma área muito importante. Percebo que inúmeros projetos e planejamentos são pautados a partir dos conceitos e conteúdos das Ciências. Assim, o processo de alfabetização, através de uma perspectiva contextualizada e significativa, requer trazer para o contexto e as discussões escolares: a escrita, a leitura, a representação, quantificação, relações espaço e tempo, contextualizações locais e globais. (Formadora da Área Sociocientífica/Matemática e Ciências Naturais).

 

Ao perguntarmos quais as potencialidades que esses educadores-formadores apresentaram durante o Projeto de articularem esses diferentes saberes, a coordenadora da Formação das Alfabetizadoras do Projeto revela que no planejamento dos formadores houve envolvimento, estudos, pesquisas e registros, por esses educadores terem uma marca histórica junto à universidade de comprometimento com movimentos sociais e processos de inclusão. Tais características possibilitaram a articulação de diferentes áreas:

 

Em primeiro lugar a de aprender com a nova experiência de formação, pois se caracterizam por enfrentar desafios e construir propostas pedagógicas. Uma oportunidade de articular na universidade o ensino, a extensão e a pesquisa porque estes 3 anos de trabalho no Programa foram de registros, reflexões, socializações, estudos, pesquisas, como o caso deste trabalho monográfico. O grupo de educadores-formadores eram professores da Universidade de Ijuí com formação e experiência, especialistas, mestres e doutores, envolvidos com causas sociais, projetos e processos de inclusão, demonstrando grande envolvimento, planejando, estudando, pesquisando e registrando o processo de aprendizagem pelo qual também estavam passando. Sentiam-se também aprendentes junto as alfabetizadoras e a alfabetizandos. A Unijuí tem (tinha) uma marca histórica forte de concepções relacionadas à educação, aprendizagem, ensino, metodologias, avaliação, etc., o que deu uma certa unidade na articulação das diferentes áreas, mesmo sem o tempo necessário de planejamento coletivo. (Formadora da Área do Planejamento, Avaliação, Sistematização do Conhecimento).

 

Ao referir-se às principais potencialidades para a realização das práticas interdisciplinares e transdisciplinares na realidade do seu campo de trabalho, os formadores respondem que tais práticas são facilitadas pelo fato de os alfabetizadores do Projeto gostarem de planejar em forma de projetos pautados por temas presentes na realidade dos educandos e abrangentes a vários saberes.

 

Pode parecer que isso seja algo difícil mas não é. As Ciências Exatas e Naturais que trabalho, envolve conceitos interdisciplinares, no seu próprio campo de saber, ou seja, Química, Física e Biologia. Percebi que os professores/alfabetizadores, gostam muito de planejar/elaborar projetos envolvendo assuntos dessa área do conhecimento. Por exemplo: Saúde, Alimentação, Energia, Qualidade de vida, Ambiente, etc. (Formadora da Área Sociocientífica/Matemática e Ciências Naturais).

 

Na concepção da Formadora da Área Histórico-Social do Grupo de Alfabetizadores, uma proposta interdisciplinar dentro dos limites de uma área de atuação não tem sentido se não houver uma intenção de incluí-la num currículo que se preocupe com essa dimensão. Complementa que o conhecimento com o qual ela trabalha necessita estabelecer um “trânsito” entre os conhecimentos de outras áreas para aprofundar os conceitos, associando à realidade do educando, dialogando com a comunidade escolar e com diferentes saberes. Aproximando-se daquilo que Marques (1997, p. 60) dizia ao se referir à interlocução de saberes, paradigma neomoderno, no qual a educação cumpre um diálogo de saberes, não uma simples troca de informações, mas uma busca do entendimento compartilhado entre todos os que participem da mesma comunidade de vida, de trabalho, de uma comunidade discursiva de argumentação:

 

No caso, [a área] de Estudos Sociais procurou trabalhar um conjunto de conceitos como espaço, tempo e grupo social que se aprofundam em compreensões que tem forte inserção no social e ao longo do trabalho requer níveis de abstrações e sínteses, ainda associadas e estruturada pela experiência. Os alunos compõem novos sentidos e significados a ela, através da apropriação de novos conceitos, do contato e uso de mediadores culturais (como o mapa, por exemplo). As potencialidades podem firmar-se a partir de um trabalho que esteja próximo ao contexto de ensino, ligado aos interesses dos sujeitos envolvidos, sempre atento para a complexidade do real e a necessidade de se considerar as relações entre seus diferentes e contraditórios aspectos. Estar em conexão e em diálogo constante com a comunidade escolar para intercambiar idéias, expectativas, estabelecer ações de compartilhamento, pesquisar temática. (considerar diferentes saberes).

 

O espaço e a oportunidade que o educador possui ao se encontrar com diversas pessoas (educandos, outros educadores, gestores...), auxilia no planejamento conjunto e na articulação de parcerias entre estes na formação continuada.

 

Outro aspecto a considerar como potencialidade está no espaço e oportunidades que o professor possui para realizar estudos, encontros com os sujeitos envolvidos nesse processo: alunos, colegas de trabalho, gestores e pais para um planejamento colaborativo e articulação com parceiros na formação continuada. Os tempos e espaços de formação e atuação nas escolas devem ser repensados. Outro aspecto é a construção de currículos temáticos. (Formadora da Área Histórico-Social).

 

Freire aborda a importância do tema gerador no currículo, construindo mediante diálogo e instigando diálogo entre os sujeitos que participam dos processos educativos, que provoca reflexão e contextualização dos conteúdos. Marques, por sua vez, propõe que, por meio da ação comunicativa, os sujeitos dialoguem para se entenderem entre si e sobre algo. Para que haja na sala de aula uma qualidade das aprendizagens para Marques (1996a, p. 113) exige-se:

 

         um projeto pedagógico da escola , em permanente redefinição de valores e conceitos;

         uma dinâmica curricular em que se correlacione a continuidade da interlocução dos saberes em eixos de articulação da concentração das atenções e da recorrência diversificada dos conceitos em cada etapa ou período letivo;

         um projeto da atuação integrada de cada turma de alunos e equipe de professores, de forma que as disciplinas e os temas não apareçam isolados, nem os alunos e professores atuem cada um por si, mas em que se correlacionem os conceitos trabalhados em função da reconstrução deles nas aprendizagens, desde as aplicações mais simples, lineares, até a exploração autônoma das possibilidades com que acenam [...].

 

A formação de alfabetizadores no Projeto Alfabetiza Rio Grande foi insistente na necessidade do diálogo e ainda sobre as possibilidades de romper as fronteiras disciplinares. São pontuadas nas entrevistas concepções freireanas na constituição de conhecimentos relacionados ao cotidiano do sujeito envolvido no processo de EJA, como foi citado:

 

Passaram a compreender melhor os processos escolares, as formas como aprenderam ao longo de suas vidas escolares, os processos de exclusão que sofreram, muitas vezes resultado das “grades curriculares” fragmentadoras e “empoderadoras” de algumas disciplinas em detrimento de outras (ex.: Matemática com relação às artes e outras formas de expressão) e muito do que “não se deve” repetir de modelos prontos. Retomar as concepções freireanas na alfabetização de adultos foi fundamental para compreender a (re)construção de conhecimentos com base nos saberes da vida. (Formadora da Área do Planejamento, Avaliação, Sistematização do Conhecimento).

 

No que tange às dificuldades, que na realização da entrevista expressamos como as maiores limitações para a realização das práticas interdisciplinares e transdisciplinares na realidade do campo de trabalho de cada área, foram pontuadas diferentes situações de ordem prática, formativa, epistemológica e corporativa. Constatamos que, para Marques, o conceito de transdisciplinaridade está inteiramente relacionado com o diálogo na ação comunicativa, quando as disciplinas se intercomplementam em uma rede complexa. A comunicação e a possibilidade consensual entre os sujeitos cumprem as condições da racionalidade para além das reflexões teóricas. Quando há impossibilidades para essa comunicação consensual e complexa, apresentam-se dificuldades como as pontuadas pela formadora:

 

As dificuldades são de várias ordens. Ordem prática: a própria escola está organizada para privilegiar o currículo disciplinar, a organização temporal da escola em momentos e ritmos sequenciados; os espaços delimitados para separar, ordenar; material didático próprio para cada série, entre outras. Formativa: a formação dos professores também reproduz, de certa forma, essa mesma lógica, salvo algumas práticas alternativas de formação. Epistemológica: a base epistemológica do conhecimento moderno, disciplinar, prima pela fragmentação do objeto do conhecimento (não se refere em nada ao mundo da vida). Corporativo: relações de poder nas especialidades do conhecimento, mantendo exclusividades, hierarquia entre saberes, lutas pelos espaços de atuação. (Formadora da Área Histórico-Social).

 

Há dificuldades de alguns alfabetizadores em concretizar práticas intertrans-disciplinares e, muitas delas, estão associadas à formação inicial (magistério e/ou Pedagogia) desses alfabetizadores. Os formadores avançaram em ações que integram o currículo de forma dialógica e intertransdisciplinar, mas alguns alfabetizadores mostraram muita dificuldade em solidificar práticas com essas orientações no decorrer do Projeto:

 

Penso que precisamos definir “as práticas inter e transdisciplinares”. Um vivenciado por nós educadores (extencionistas) – nesse âmbito acho que já avançamos muito e estamos concretizando trabalhos muito bons, quer dizer, já conseguimos fazer. Porém, percebo que para os professores cursistas/ alfabetizadores – embora vivenciem essa prática, ainda há muitas limitações para concretizá-las. Penso que isso merece uma pesquisa, talvez a limitação está na formação dos mesmos. (Formadora da Área Sociocientífica/ Matemática e Ciências Naturais).

 

Segundo a professora Formadora da Área do Planejamento, Avaliação, Sistematização do Conhecimento do Projeto Alfabetiza Rio Grande, houve tentativas por parte dos professores para promover a articulação dos saberes dos educandos com os conhecimentos científicos. Aparecem entre os alfabetizadores desafios nesse sentido, provocados pelo não comparecimento de algumas delas a todas as formações e pela inexperiência.

 

Por parte dos professores formadores, fazia parte de todas as formações, como fundamento, partir dos saberes dos educandos e as metodologias usadas nas áreas de conhecimento desenvolvidas na formação (alfabetização na leitura e escrita; alfabetização matemática, ciências naturais, ciências sociais, arte, etc.). Por parte das alfabetizadoras houve esforço neste sentido, mas, como conseguiram significar na realidade das aulas, não tem como avaliar em toda a sua abrangência. Muitas conseguiram fazer um trabalho bem articulado, outras não. No acompanhamento dos planejamentos nos espaços de formação na Universidade avalio que cerca de 70% das alfabetizadoras conseguiam organizar um planejamento integrado e articulado com os saberes dos educandos; se propunham a isto, mas a efetivação deste planejamento passa por muitas variáveis próprias dos adultos e idosos (educandos) e da juventude e inexperiência (das alfabetizadoras). (Formadora da Área do Planejamento, Avaliação, Sistematização do Conhecimento).

 

Entre as dificuldades, volta a aparecer o antigo problema da descontinuidade nos projetos destinados à EJA, sobre o pouco tempo de planejamento coletivo entre as áreas do conhecimento:

 

O pouco tempo para planejamento coletivo entre as áreas, ficou mais na boa vontade e no esforço de cada uma. Há descontinuidade nas etapas de execução e de financiamento do Programa Estadual de Alfabetização. Dificuldades de conciliação de horários, enfim, foram várias dificuldades. (Formadora da Área do Planejamento, Avaliação, Sistematização do Conhecimento).

 

Em uma questão dirigida aos formadores, pedimos a opinião de cada um, sobre se a sua prática de formação no Projeto Alfabetiza Rio Grande foi mais interdisciplinar ou transdisciplinar. Nas respostas aparece uma reflexão pessoal da atuação desses educadores, quando diferentes entendimentos desses conceitos são expressos, em um caso evidenciando que a ciência para EJA já é interdisciplinar. Na opinião da Formadora, os conceitos são transdisciplinares, criando uma interlocução entre os saberes, que, segundo Marques, significa que a educação se cumpre num diálogo de saberes, não apenas em simples troca de informações (2002, p. 118).

 

Ambas. A Ciência para EJA já é interdisciplinar: Física, Química, Biologia, mas os conceitos são transdisciplinares. Por exemplo: qualidade de vida. É um conceito que a Ciência trabalha, a Educação Física, a Matemática, a Geografia, a História, a Língua Portuguesa, etc. (Formadora da Área Sociocientífica/Matemática e Ciências Naturais).

Para outra formadora, os conceitos “interdisciplinaridade” e “transdisciplinaridade” no Projeto, evidenciaram uma interconexão na compreensão de diferentes tempos, espaços entre o sujeito da EJA na área histórico-social:

 

Os princípios teóricos da interdisciplinaridade estiveram mais presentes na abordagem dos conceitos ligados ao ensino de História e Geografia, apresentados de forma a evidenciar suas interconexões para a compreensão das diferentes temporalidades e da organização do espaço geográfico, passando sempre pelo conhecimento do sujeito inserido em seu espaço e tempo. A metodologia de trabalho evidenciou a possibilidade de articulação temática para recontextualizar os conceitos e fazer as possíveis interligações entre eles (Formadora da Área Histórico-Social).

 

O tema gerador, sugerido por Freire, tenta superar a fragmentação dos saberes, e propõe um trabalho em equipe. Dessa forma, o tema pode contextualizar e articular saberes. Quando um conceito é contextualizado, ganha sentido para o educando. Quando é articulado com outros saberes, supera a fragmentação entre as disciplinas em práticas orientadas por e para linhas e eixos temáticos e conceituais intercomplementares, não enclausurados em si mesmos, como propõem Marques (2002, p. 92). Assim sendo, a articulação temática citada pela formadora pode permitir a interligação dos saberes, o diálogo entre as disciplinas a partir de um tema comum.

No decorrer da pesquisa, obtivemos um depoimento que informa sobre a ausência de planejamento conjunto entre formadores das diferentes áreas do conhecimento e espaço para reflexão das ações praticadas no Projeto.

 

Ficou mais em nível do trabalho com o conhecimento de minha área de atuação (História e Geografia). Não teve uma relação e articulação com outras áreas do conhecimento trabalhada no curso. Não fizemos essa articulação e planejamento conjunto. Minha participação foi parcial, o grupo que continuou possivelmente articulou-se de outra forma para dar continuidade ao trabalho. (Formadora da Área Histórico-Social).

 

Na opinião da Formadora da área Sociolinguística, a formação, no Projeto, foi mais interdisciplinar que transdisciplinar, pois há dificuldades de alguns alfabetizadores na compreensão desses conceitos e de forjar práticas inter/transdisciplinares. Também pontua a ausência, na formação continuada e permanente dos alfabetizadores, de atividade que enfatizasse o planejamento, como aponta a fala a seguir:

 

Há dificuldades de entendimento inclusive de um planejamento interdisciplinar. Há vínculos muito fortes com o trabalho diretamente e diário com conteúdos, exercícios, livro didático, atividades decorrentes de assuntos como meio ambiente, sustentabilidade e relacionados com artes em forma de artesanato, algumas poucas situações familiares; enfim entendo que falta uma formação continuada e permanente, considerando a EJA, mas com ênfase no planejamento (Formadora da Área Sociolinguística).

 

Ainda na questão interdisciplinaridade e/ou transdisciplinaridade, perguntamos à coordenadora do Projeto quais as práticas dos formadores que se aproximaram da interdisciplinaridade e/ou da transdisciplinaridade? E quais se aproximaram mais. Ainda perguntamos: Em sua opinião por que isto ocorreu?

 

Em nenhum momento foi trabalhado com o conceito disciplina na alfabetização, mas com totalidades e áreas de conhecimento. A interdisciplinaridade existe porque é o esforço de resgatar a unidade perdida pela fragmentação, o que ocorre principalmente na estrutura regular da escola que tem sua base no paradigma moderno fragmentado e individualista. A transdisciplinaridade é a que tem mais a ver com EJA na alfabetização inicial porque não compartimentaliza conhecimentos, concebe-os como uma unidade sujeita a muitas interpretações e significações, de acordo com a história de vida de cada sujeito, suas experiências, seus sonhos, suas realidades multifacetadas, etc. (Formadora da Área do Planejamento, Avaliação, Sistematização do Conhecimento).

 

A pesquisa finalmente pontua que alguns alfabetizadores realizaram um trabalho criativo, alfabetizando a partir da realidade dos educandos, contextualizando saberes, embora sem se darem conta das concepções teóricas que estavam fundamentando suas práticas pedagógicas. Outras vezes, por não saberem onde fundamentaram tais práticas, acabavam reproduzindo um modelo de ensino-aprendizagem que já havia contribuído para a exclusão/evasão desses educandos da escola (modelos que não contextualizam os saberes, acríticos, não reflexivos...).

A coordenadora do Programa Alfabetiza Rio Grande afirmou que é necessário realizar uma reflexão sobre as experiências de alfabetização desenvolvidas pelos alfabetizadores e sobre as teorias que sustentam as práticas de sala.

 

As alfabetizadoras, muitas vezes, fazem um trabalho ótimo sem saber em que concepções teóricas sustentam-se suas práticas; ou reproduzem modelos de suas formações escolares, as mesmas que muitas vezes as excluíram da escola. A reflexão sobre estas questões foi feita, resgatando suas experiências de alfabetização enquanto alunas e como seus professores ensinavam para confrontar com outras práticas e para analisar quais teorias sustentam estas práticas (Formadora da Área do Planejamento, Avaliação, Sistematização do Conhecimento).

 

O Projeto Alfabetiza Rio Grande teve em seus objetivos uma tentativa de superação da fragmentação das disciplinas na EJA. Nessas entrevistas foram apontados aspectos que favorecem o rompimento dessa fragmentação das disciplinas: o diálogo proposto; a tentativa de diálogo entre sujeitos e saberes; a formação continuada em uma perspectiva libertadora; a valorização dos saberes dos educandos; o olhar atento diante das histórias de vida do educando para a compreensão da realidade.

Todos esses aspectos, somados a uma fundamentação teórica a partir de Freire (tema gerador, diálogo e interdisciplinaridade) e Marques (interligação dos saberes, produção de consensos, diálogo e transdisciplinaridade), ampliam a compreensão da realidade e os espaços de comunicação, podendo significar um importante avanço para um currículo da EJA fundamentado em possibilidades intertransdisciplinares, excluindo a supervalorização de alguns conhecimentos e a desvalorização de outros: o que fragmenta e torna o currículo sem sentido ao educando. Essas questões poderiam ter sido aprofundadas com as alfabetizadoras se o programa não tivesse sido interrompido em 2007.


 

 

 

 

 

 

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

 

Nossa pesquisa buscou apresentar contribuições para uma reflexão sobre o diálogo intertransdisciplinar na EJA, que é uma modalidade de ensino/aprendizagem que vem “acolhendo” historicamente sujeitos que foram excluídos de processos educativos em algum momento de suas vidas.

Diante do propósito de analisar uma prática de formação de alfabetizadores, no âmbito do Projeto Alfabetiza Rio Grande, para compreender: como se pode alcançar a superação do tratamento disciplinar, fragmentado em processos educativos e como são construídas relações dialógicas entre educandos e educadores no âmbito desses processos, organizamos nossos referenciais e optamos por procedimentos de pesquisa a partir de ponderações sobre o que acompanhamos durante a vigência dessa prática de formação, ou seja, de 2003 a 2006. Como o programa foi interrompido com a mudança do governo do Estado e como as atividades de EJA, que permaneceram em andamento sob responsabilidade do governo estadual, após 2006, poucos subsídios dariam para nosso estudo (por terem sido comprimidas), constituímos como objeto de pesquisa o processo de formação de alfabetizadores do Projeto Alfabetiza Rio Grande desenvolvido na área da 36ª CRE, no período referido: 2003 a 2006.

O diálogo e as relações intertransdisciplinares nos processos educativos, tanto nas práticas alfabetizadoras quanto na pós-alfabetização, são desafios que na Educação de Jovens e Adultos possibilitam a participação mais intensa dos educandos na produção do conhecimento, interligando saberes disciplinares e cotidianos e (re)significando-os.

As relações intertransdisciplinares são desafios postos aos currículos de todas as modalidades de educação, mas encontram, na EJA, receptividade maior, em razão de sua história no Brasil, que mostra a grande influência do pensamento de Paulo Freire. Nessa modalidade de ensino, muitos educadores optam por trabalhar com projetos, temas geradores e com a articulação dos saberes como estratégias de ensino/aprendizagem. Sob a orientação da educação libertadora, tentam realizar práticas intertransdisciplinares na construção do conhecimento, promovendo com os educandos o diálogo desde a alfabetização até graus mais elevados de ensino, como o Ensino Médio.

A EJA pode possibilitar a promoção do diálogo por ser um espaço e tempo educativo onde as relações de poder entre uma disciplina e outra são menores, sem grandes tensões que levem à disputa por espaço e status curricular. O fato de criar oportunidades para a crítica das relações de poder nos processos educativos, vai relativizando a hierarquia entre disciplinas, podendo levar a relações menos tensas e competitivas entre elas.

Ao analisarmos as diretrizes político-pedagógicas do Projeto Alfabetiza Rio Grande, constatamos que previam a discussão e construção de currículos críticos. Segundo o documento, os alfabetizadores deviam construir processos de produção de conhecimento, contextualizando os saberes e integrando as diferentes áreas do conhecimento no currículo. Os processos formativos dirigidos a esses alfabetizadores deveriam prepará-los para isto.

Na prática em análise, os formadores procuraram, nas atividades de formação que desenvolveram, articular as diversas áreas da ciência na forma de trabalhos temáticos. Por sua vez, produziram e trabalharam com materiais didáticos que promovessem o diálogo entre os educadores. Provocaram os alfabetizadores a relatar suas práticas, a apresentar e analisar a realidade das turmas em que estavam trabalhando, a trocar experiências quanto à forma de planejamento, desenvolvimento de conteúdos e avaliação. Nestas atividades de formação, alguns alfabetizadores relataram que, em momentos diversos de suas práticas educativas, conseguiram priorizar a realidade dos alfabetizandos, trabalhando a partir de suas histórias de vida por meio de projetos e conversas dirigidas realizadas em sala de aula. Dessa foram, com um canal de comunicação aberto em sala de aula, procuravam promover a interlocução de saberes e integrar conteúdos disciplinares.

As atividades de formação no Projeto Alfabetiza Rio Grande ocorreram mediante encontros quinzenais. Esses deixaram algumas lacunas. Uma delas foi a impossibilidade de acontecerem em data que antecedesse ou coincidisse com o início das aulas ministradas pelos alfabetizadores. Outra foi a necessidade de maior duração do processo de formação. Constatamos ainda a inexistência de espaço para o planejamento conjunto dos formadores dos alfabetizadores, o que poderia ter aperfeiçoado e intensificado a prática intertransdisciplinar construída e realizada. O fato, contudo, de atividades formativas terem sido ministradas por professores de uma mesma universidade, que participam de espaços de debate comuns, deu oportunidade a que tivessem unidade de sentido.

A perspectiva de trabalho intertransdisciplinar elege, como prioridade, o tratamento não discriminatório das disciplinas nos currículos que propõe e trabalha, e desenvolve uma abordagem complexa, em que as divisões entre disciplinas deixam de ser um campo isolado do conhecimento, sem comunicação com as demais disciplinas e com os aspectos culturais dos educandos. Essa perspectiva valoriza as visões cotidianas e a atuação em equipe como desafio da convivência com a diversidade, valorizando as dimensões culturais dos saberes e se dirigindo à complementaridade. Não há como falarmos em interdisciplinaridade e transdisciplinaridade sem o diálogo entre as disciplinas e áreas do conhecimento. É o diálogo que também favorece a relação entre os saberes situados culturalmente e os conhecimentos científicos. É por intermédio do diálogo que se constitui um conhecimento não fragmentado, amplo, e que se pode fazer a reflexão crítica das construções nele implícitas. É por meio de relações dialógicas que o conhecimento passa por modificações, quando mudanças nos contextos socioculturais se apresentam e fazem novas demandas às diferentes áreas disciplinares para serem apreendidas. Por tudo isso, é necessário que tenhamos espaço para planejamento dialógico na EJA e que essas questões sejam tratadas de forma permanente nas formações continuadas dos professores.

Autores como Freire e Marques devem ser trabalhados nestas formações, uma vez que ambos contribuem com fundamentos teóricos, epistemológicos e metodologias que podem favorecer a libertação dos oprimidos, como menciona Freire, e podem melhorar as condições sociais contemporâneas, tarefa que preocupou Marques. Em consonância com os dois autores, Freire e Marques, nas teorias educativas veiculadas e práticas desenvolvidas, o processo de formação de alfabetizadores analisado abriu possibilidades de obter uma EJA mais reflexiva, crítica e dialógica, que aprende a aprender, na qual os conhecimentos se complementam entre si, rompendo a lógica fragmentária e descontextualizada; viabilizou, também, possibilidade a uma EJA que poderá se tornar mais humana, libertadora e intertransdisciplinar.


 

 

 

 

 

 

 

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APÊNDICES

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

APÊNDICE A

 

QUESTÕES PARA A COORDENADORA DAS FORMAÇÕES DE ALFABETIZADORES QUE PARTICIPARAM DAS FORMAÇÕES CONTINUADAS DO PROJETO ALFABETIZA RIO GRANDE 2003-2006

 

 

  1. Houve tentativas por parte dos professores para promover a articulação dos saberes dos educandos com os conhecimentos científicos? Como?
  2. Você percebeu que essa articulação foi realizada?
  3. Quais as potencialidades que esses educadores-formadores apresentaram durante o Projeto de articularem esses diferentes saberes?
  4. Quais as limitações?
  5. Existe a discussão da importância do rompimento das fronteiras entre as disciplinas. Esta discussão perpassa temas e paradigmas. Como na formação dos educadores do PARS foi tratado este rompimento de fronteiras?
  6. As práticas dos formadores aproximaram-se mais da interdisciplinaridade ou da transdisciplinaridade? Na sua opinião por que isto ocorreu?
  7. Quais as maiores dificuldades os educadores-educados mostraram em absorver a interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade?
  8. Quais as possibilidades que apresentaram em romper as fronteiras disciplinares?
  9. Em que aspectos a formação continuada realizada no Projeto Alfabetiza Rio Grande fez a diferença nas práticas educativas realizadas pelas educadoras?
  10. Que tipo de planejamento/conexão/discussão ocorreu entre os professores que participaram como palestrantes das formações?

 


APÊNDICE B

 

QUESTÕES PARA EDUCADORES QUE PARTICIPARAM DAS FORMAÇÕES CONTINUADAS DO PROJETO ALFABETIZA RIO GRANDE 2003-2006

 

 

  1. Como surgiu o convite de participar da formação continuada com professores no Projeto Alfabetiza Rio Grande? Por quê?
  2. Como a EJA pode proporcionar uma possível integração do conhecimento científico partindo da sua área de saber com os conhecimentos cotidianos? E com outras disciplinas?
  3. Na sua opinião como educador (a), quais são as maiores limitações para a realização das práticas interdisciplinares e transdisciplinares na realidade do seu campo de trabalho?
  4. Quais são as principais potencialidades para a realização das práticas interdisciplinares e transdisciplinares na realidade do seu campo de trabalho?
  5. Em que fundamentos, teorias e praticas você planejou suas contribuições na formação continuada no Projeto Alfabetiza Rio Grande?
  6. Em sua opinião, a sua prática de formação no projeto Alfabetiza Rio Grande foi mais interdisciplinar ou transdisciplinar. Por quê?
  7. Como você sentiu que os professores se prepararam e receberam sua participação?

 


APÊNDICE C

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 




[1] Os objetivos do Projeto de EJA em estudo, “Alfabetiza Rio Grande” 2003-2006, que orientam este trabalho, serão tratadas conforme a questão da pesquisa no Capítulo 3.

[2] Jürgen Habermas, filósofo e sociólogo alemão, nascido em 1929. Concebe a razão comunicativa e a ação comunicativa, ou seja, a comunicação livre, racional e crítica – como alternativa à razão instrumental e superação da razão iluminista – “presa” pela lógica instrumental, que encobre a dominação. Ao pretender a recuperação do conteúdo emancipatório do projeto moderno, no fundo, Habermas preocupa-se com o restabelecimento dos vínculos entre socialismo e democracia.

[3] Freire conceitua o mundo como sendo uma realidade objetiva, independente do homem, possível de ser conhecida. “O mundo social e humano não existiria como tal se não fosse um mundo de comunicabilidade fora do qual é impossível dar-se o conhecimento humano. A intersubjetividade ou a intercomunicação é a característica deste mundo cultural e histórico” (FREIRE, 2000, p. 47).

[4]  RIO GRANDE DO SUL. Secretaria de Educação. Departamento Pedagógico. Divisão de Educação de Jovens e Adultos. Diretrizes Político-Pedagógicas: ressignificando a educação de jovens e adultos. Porto Alegre: Deja/DP/SE, 2003-2006.

[5] A educação libertadora põe no centro do trabalho educativo temas e problemas científicos, políticos e sociais, entendendo que o papel da educação é abrir caminho para a libertação dos oprimidos. Concebe o homem como sujeito inacabado, e se expressa por uma educação militante, colada aos setores populares e aos marginalizados da sociedade capitalista, que incluem os educandos da EJA, geralmente trabalhadores/as, empregados/as e desempregados/as que não tiveram acesso à cultura letrada.

[6] O conceito de realidade em Freire está somado à comunicação que acontece nos atos de reflexão do contexto sociocultural em que os sujeitos vivem. Para ele, “não há pensamento que não esteja referido à realidade, direta ou indiretamente marcado por ela, do que resulta que a linguagem que o exprime não pode estar isenta destas marcas”. (FREIRE, 1992, p. 70).

[7] Como tratam os documentos da proposta em estudo. Ver as Diretrizes Político-Pedagógicas: ressignificando a educação de jovens e adultos. Porto Alegre: Deja/DP/SE, 2003-2006.

[8] A racionalidade instrumental é definida como uma razão na qual o sujeito do conhecimento toma a decisão de que conhecer é dominar e controlar a Natureza e os outros seres humanos. Quando a razão é instrumental, a ciência deixa de ser uma forma de acesso aos conhecimentos para se torna um instrumento de dominação e exploração (MARQUES, 1996b, p. 17-50).

[9] Para ocorrer a interação comunicativa, cada interlocutor deve estar disposto a justificar suas pretensões de validade por meio de provas e argumentos. O discurso argumentativo pressupõe um princípio básico de validação: um consenso fundado num critério de universalização. Na universalização do consenso, todos os sujeitos podem ser aceitos sem coação (MARQUES, 1996b, p. 97).

[10] A educação libertadora é caracterizada pela busca do espaço onde os educandos e educadores estabelecem uma relação de troca de experiências, quando o educador também é aprendiz e o educando também é educador. Os conhecimentos já adquiridos pelo educando são valorizados e explorados, permitindo que ele reflita e tenha as suas próprias conclusões. Opõe-se à educação bancária.

[11] A educação progressista caracteriza-se por colocar em questão os valores capitalistas e desenvolver entre educadores e educandos uma atitude favorável à transformação social.

[12] O paradigma newtoniano-cartesiano, que se constituiu na modernidade, é definido como paradigma da disjunção. Nessa perspectiva, tudo é condenado à separação: corpo, alma e emoções, sujeito e objeto, ser humano e natureza, interioridade e exterioridade, o sujeito e o coletivo social humano. A ciência moderna, sistematizada por Descartes e consolidada por Newton, elimina da investigação científica o subjetivo, a emoção e o desejo como obstáculos do conhecimento. O ser humano perde sua própria subjetividade e é condenado a uma solidão. Nesta fragmentação, a ética separou-se da religião e do processo de construção do ser humano (PELLANDA, 2000).

[13] Paulo Freire foi secretário da Educação no Estado de São Paulo no governo de Luiza Erundina, gestão do Partido dos Trabalhadores (PT), de 1989 a 1992.

[14] Para explicar a lógica do Terceiro Termo Incluído, Santos (1999) explica que os problemas complexos não se definem com a lógica do “falso” e do “verdadeiro”, do “é” ou “não é”. Estabelece uma terceira lógica, a da complementaridade dos opostos. A unidade se dá pela tensão entre ambos e o que parecia conflitante num determinado nível, em outro não é. E os opostos não são abolidos, eles permanecem existindo. Nesta lógica não mais se considera a existência de somente dois termos e, sim, três; um terceiro que é o Terceiro Termo Incluído. A lógica do Terceiro Termo Incluído permite o encontro de diferentes olhares, construindo-se um sistema coerente e sempre aberto, o que nos permite compreender, principalmente, os fenômenos sociais e políticos. Nesse raciocínio, se diz que a transdisciplinaridade está “entre”, “através” e “além” das disciplinas (NICOLESCU apud SANTOS, 1999). A transdisciplinaridade ultrapassa as fronteiras de cada ciência disciplinar e constrói um novo conhecimento por meio das ciências, um conhecimento interligado, conectado, integrado em função da humanidade, desempenhando relações de interdependência, nas ligações mantidas pelo indivíduo com o meio ambiente.

[15] Para Paulo Freire revolução é o processo crítico que se conduz com a ciência e a reflexão. É a derrubada do poder para efetuar mudanças profundas nas estruturas socioeconômicas e políticas. Fala-se também em revolução técnico-científica, revolução industrial e em revolução cultural, entendendo-se com isso um avanço importante ocorrido nessas esferas num determinado momento histórico. Revolução democrática é revolução exercida pela força de organização e luta dos trabalhadores, sem o uso de métodos violentos.

[16] O ano de 1964 marcou a História do Brasil pela culminância de um Golpe de Estado que interrompeu o governo do presidente João Belchior Marques Goulart, que havia sido eleito democraticamente. O Golpe de Estado de 1964 submeteu o Brasil a uma ditadura militar apoiada politicamente aos interesses dos Estados Unidos da América. O Golpe durou até 1985, quando, indiretamente, foi eleito o primeiro presidente civil desde 1964, Tancredo Neves. Esta época de Ditadura Militar foi caracterizada por um grande desenvolvimento econômico do país, violenta repressão política e aumento da dívida externa.

[17] O termo multiculturalidade aqui citado está relacionado como movimento social e como enfoque teórico, tocando na questão da identidade dos sujeitos envolvidos nos processos educativos, mas diretamente ligado à cidadania. Discute as dimensões filosóficas, políticas e éticas, apontando seus limites, analisando as perspectivas que consideram questões como a diferença cultural e as desigualdades sociais. Implica produção de identidades, as suas tensões, ao individualismo e à diferença cultural, visando a superar a visão monocultural curricular (Padilha, 2004). No Brasil, como uma mistura de culturas, credos, e miscigenações desde o tempo de sua colonização, essa característica é presente. O termo se desenvolveu no país a partir dos movimentos sociais por direitos civis dos anos 60 e 70, vislumbrando oportunidades iguais para todos.

[18] Grupo de Estudos sobre Educação, Metodologia de Pesquisa e Ação. Organização privada, independente das Universidades, das Secretarias de Educação e do Ministério de Educação. Associação civil de caráter científico, sem fins lucrativos. Tem como objetivo o estudo e a pesquisa para o desenvolvimento das ciências da educação e a realização de ações efetivas para a melhoria da qualidade do ensino.

[19] A realidade é complexa e interliga entre si os saberes. A ciência nesta perspectiva integra diferentes modos de pensar, se opondo aos mecanismos reducionistas, que fragmentam os saberes. Para Marques, a junção dos conceitos de complexidade e de auto-organização aprofunda o diálogo entre as ciências (MARQUES, 2

Flávia Garcia Fernandes

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